Geral

Olhos em Porto Alegre

(*) Fernando José Dias da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

Dessa vez não haverá barricada, não haverá soldados vestidos com uniformes saídos do filme Guerra nas Estrelas. As vitrines não serão estilhaçadas e nem haverá guerra de bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra coquetéis molotov. É que todos estão do mesmo lado e contra o mesmo fantasma que, segundo eles, ronda o mundo: a globalização perversa. Se não há enfrentamento previsto, o I Fórum Social Mundial, que vai acontecer em Porto Alegre, de 25 a 30 de janeiro, será uma festa. É, talvez a reunião na Capital gaúcha, possa se tornar mesmo um Woodstock da esquerda. Cinco dias de paz e amor, mas com uma palavra de ordem: Não à globalização, não ao FMI, não ao Banco Mundial, não à Organização Mundial do Comércio (OMC). E muito mais. Quanto a isso, a proposta desse fórum se reúne simultaneamente com o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, é bem clara. Ignacio Ramonet, chefe do Le Monde Diplomatique, um dos arautos do movimento, explica no editorial do último número do seu jornal que o objetivo do encontro não é protestar contra as injustiças, desigualdades e desastres que provocam os excessos do liberalismo, um pouco por todo mundo. Mas tentar, dentro de um espírito positivo e construtivo, propor dessa vez um quadro teórico e prático que permita entender a globalização de um tipo novo e de afirmar que é possível outro mundo mais solidário e sem tanta desumanidade. Isso quer dizer que os metaleiros de Seattle, Washington, Praga, Melbourne e Nice não estarão dando as cartas em Porto Alegre. Essa próxima reunião está mais para Beatles, John Lennon, de Imagine, do que para as cusparadas dos Sex Pistols e de Sid Vicious. Tudo bem. Mas os filhotes de Seattle só conseguiram atravessar o hemisfério e chegar ao Sul do Brasil graças à maneira de ser punk das primeiras manifestações. Várias outras autoridades mundiais, como o presidente Bill Clinton, também ouviram o barulho das ruas e fizeram pronunciamentos no mesmo sentido, pregando normas e procedimentos mais democráticos de funcionamento da globalização. Agora, cá para nós, entre chutar canelas, com botina Catterpilar e sentar para conversar como meninos comportados, vai um grande avanço.

Mas é preciso saber se dessa conversa sairá alguma coisa positiva. Não vai ser mole. Os objetivos das milhares de ONGs, das centenas de sindicatos, do incontável número de grupos de pressão, dos partidos envolvidos, são completamente díspares. Aparentemente, a luta é comum. Ela é contra o desemprego, a marginalidade, a exclusão social provocado pelo efeito perverso da globalização econômica. Até aí todos estão de acordo. Os narizes começam a ficar torcidos quando se percebe que assegurar o emprego de alguns pode significar desempregar outros. E cada um quer puxar o fogo para a sua sardinha. De qualquer forma vai ser uma festa esse I Fórum Social Mundial. Mas uma festa que ninguém sabe como vai terminar. Talvez seja o início de um grande acordo, onde também entrariam os senhores de Davos, o que seria positivo. Talvez não se consiga avançar nada, podendo o nome do fórum ser enriquecido Fórum Social Mundial, o que nunca existiu.

(*) O autor, Fernando José Dias da Silva, é articulista da Agência Estado

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