Eu estava voltando da Bélgica, depois de ter passado o Natal com amigos na região de Flandres. Esta região faz divisa com a Alemanha e a Holanda e os seus habitantes falam o flamengo, uma língua bem próxima ao alemão, o que sempre facilitou a nossa comunicação.
Em Aachen, a primeira cidade alemã depois da fronteira, embarquei em um ICE, o chamado trem-bala, que percorre a Alemanha a uma velocidade de 200 km por hora e possui um conforto como o de uma sala vip de aeroporto. Durante a viagem meu companheiro foi um bom livro, uma coletânea de cartas escritas por dois filósofos, Hanna Arendt e Karl Jaspers; em outras palavras, um interessante papo furado entre filósofos.
Pouco antes do final da viagem acabei pegando no sono e dormi por alguns minutos. Acordei quando chegamos em Munique. Ainda meio sonolento apanhei minhas coisas e me dirigi à estação de metro. Foi em casa que acabei constatando que havia deixado meu livro no assento do trem. Não era a primeira vez que havia esquecido algo e estava certo que não seria a última.
Dois dias depois, já conformado com a perda, entrei na Internet para olhar minha caixa de correio. Para minha surpresa, encontrei um e-mail de um desconhecido. A pessoa se apresentava como sendo de Hamburgo, norte da Alemanha, e me perguntava se eu havia perdido um livro de Arendt e Jaspers em um ICE. Foi então que me recordei que utilizara meu cartão de visitas como marcador de páginas.
Respondi imediatamente que sim, que eu era o dono do livro. Dois dias depois eu recebia meu livro pelo correio e ficava admirado da cordialidade e responsabilidade do amigo desconhecido de Hamburgo.
O ser humano é comunicativo por natureza , ou seja, um ser que reage às situações e oferece à elas, de forma consciente ou não, uma resposta. Desta forma, o ser humano encontra-se sempre no âmbito de uma Responsabilidade, expressão esta que em sua etimologia significa dar uma resposta a alguém.
Assim, como pessoas responsáveis, nós respondemos por nossos atos ou pelos dos outros. A responsabilidade, porém, significa muito mais do que o cumprimento de obrigações e deveres. É fundamental entendê-la em seu sentido ontológico, ou seja, relativo à essência de nosso ser. Todos nós somos pessoas, o que significa, seres que necessitam de abertura, relacionamento e comunicação com os outros e com o mundo.
Nenhuma pessoa saudável consegue viver sozinha. Este estado de abertura só se torna possível à medida que agimos como seres responsáveis.
A responsabilidade não só estabelece o grau e a profundidade de nossas relações sociais, mas ela própria constitui-se em uma forma de relação: uma existência em diálogo. Uma relação com o mundo que se desenvolve frente a nós mesmos, ou seja, à nossa consciência e frente às outras pessoas.
Isso significa que responsabilidade é sempre, ao mesmo tempo, sinal de liberdade e de dependência. Sendo responsáveis podemos viver com mais tranqüilidade, pois ganhamos a confiança dos outros e somos reconhecidos como pessoas emancipadas.
Esta liberdade, porém, possui um preço: o cumprimento das leis sociais e dos critérios morais do grupo. Somente nesta dialética entre liberdade e dependência a vida social torna-se possível .
A expressão maior de responsabilidade chama-se preocupação. Basicamente sou responsável à medida que me preocupo comigo mesmo, com os outros e com o meio ambiente, ou seja, com a vida da sociedade em seu todo. Ao encontrar meu livro no trem, o amigo de Hamburgo preocupou-se com a minha perda e procurou dar a sua resposta àquela situação.
Ser responsável significa ir contra ao famoso lema: Eu tenho que levar vantagem em tudo, certo?.
Responsabilidade significa preocupar-se não somente com as minhas vantagem, mas sim, com o bem comum, com a vantagem de todos. À medida que torno-me consciente de que não vivo sozinho, mas convivo com outros seres humanos em sociedade e que a minha felicidade está intimamente ligada à felicidade deles, começo a preocupar-me em dar uma resposta às situações e problemas do cotidiano, que venha a favorecer a todos.
Esta consciência me leva a uma co-responsabilidade. Sem dúvida alguma, não sou diretamente responsável pelo menino que vejo mendigando no semáforo, afinal ele não é meu filho. Mas, em relação à sua situação, possuo uma co-responsabilidade, e isso simplesmente por dois motivos: ele é ser humano como eu sou e a sociedade que permite que ele passe o maior tempo de sua infância na rua é a mesma sociedade que ajudo a organizar e construir.
Como escreveu Bernard Shaw: O pior pecado contra nossos semelhantes não é o de odiá-los, mas o de lhes ser indiferentes. O que significa ser irresponsável.
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(*) Especial para o JC Cultura