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Hip hop: os riscos do sucesso

Fernando Penna
| Tempo de leitura: 4 min

Expressão das ruas fortalece e realiza o maior evento do gênero em São Paulo. Rappers discutem se o sucesso compromete ideologia do movimento

É o terror! É o terror!Rap NacionalÉ o terror que chegou!Rap Nacional(GOG)

Quando começou a primeira apresentação do festival Milenium Rap, no sábado passado, uma parte das 40 mil pessoas que estiveram no evento ainda não havia entrado no estacionamento do Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo.

Mesmo do lado de fora, elas tomaram parte de um momento histórico para o rap nacional.

Só agora, após o sucesso de diversos grupos, as gravadoras multinacionais passaram a investir no estilo e o festival foi o maior evento do gênero já organizado no Brasil.

O único aspecto negativo ficou por conta da ausência do grupo norte-americano Bone Thugs-n-Harmony, que havia sido anunciado. Os integrantes do conjunto não tiveram autorização para vir ao Brasil, pois enfrentam problemas com a justiça do seu país.

Esse fato revoltou os presentes, que acabaram descontando sua raiva em cima do outro grupo estrangeiro da noite. Os componentes do, também norte-americano, Lost Boys não conseguiram fazer sua apresentação devido à hostilidade da platéia, que recebeu os rappers com uma chuva de objetos.

O clima só voltou ao normal após um longo discurso de Ice Blue, dos Racionais MCs e um dos organizadores do evento.

Apesar dos seus integrantes se auto-intitularem terroristas das palavras, o movimento rap começa a conviver com os perigos da fama.

As músicas com letras radicais e a proposta de promover a revolução da periferia podem ser enfraquecidas pela oportunidade de ganhar muito dinheiro. As gravadoras viram o quanto vendemos. Agora o dinheiro vai rolar. Chegou a hora da verdade, agora vamos ver quem tem ideologia e quem só quer adiantar seu lado. De repente o cara tem família para cuidar e pode achar que ideologia não enche barriga de ninguém, afirmou Douglas, rapper do grupo Realidade Cruel, de Hortolândia (SP).

Para ele, com o investimento das gravadoras, certamente surgirão grupos comerciais, porém, na sua opinião, muitos vão manter suas raízes. O Realidade foi o primeiro a tocar no festival.

O ponto alto da apresentação foi a participação do rapper de Brasília GOG, na música É o Terror!.

Essa música está no último trabalho de GOG e foi feita em parceria com Flagrante, integrante do Realidade. GOG esteve em Bauru em maio, no projeto Quilombo Groove, realizado no Sesc, quando deu uma palestra sobre a importância do movimento hip hop.

Defensores da valorização da periferia, os participantes do movimento procuram afastar os jovens do cotidiano violento com a ajuda da música, da dança e do grafite.

Interior na fita

Esse trabalho tem conseguido bons resultados em várias cidades da capital e do Interior. No ano passado, o Sesc Bauru organizou oficinas culturais e debates em torno do assunto. O Centro Cultural também abriu espaço para o rap, no projeto Arena.

A partir do dia 30, a cidade recebe outro evento do gênero, desta vez na Oficina Cultural.

Para o integrante do Racionais MCs DJ KL Jay, os efeitos da simpatia da mídia pelo rap só dependem das pessoas ligadas ao movimento. Vai chegar muita gente da mídia com boas e com más intenções. O que não pode acontecer é ficar empolgado porque seu clipe está passando na televisão, seu disco está vendendo bastante, disse.

KL jay acredita que o fato de pessoas do meio estarem tomando a frente dos negócios ligados ao rap é um bom sinal. Esse festival (Milenium Rap) está sendo organizado pelo Ice Blue, que é do Racionais, pelo Primo Preto e pelo Black Blue, que também estão ligados ao rap. Isso me deixa contente, pois o rap é a nossa vida, comentou.

Na opinião do apresentador de tevê João Gordo, esse momento é o resultado de muitos anos de trabalho dos conjuntos. O pessoal do rap vem batalhando espaço faz muito tempo. Agora chegou o momento deles. As gravadoras viram os Racionais vendendo um milhão de cópias, a galera lotando os shows e agora vão querer comprar o produto. Quem vai escolher entre ser vendido ou não serão os próprios músicos, comentou.

Ao que parece, a maioria dos grupos deve manter sua linha de protesto. Nas palavras da primeira música cantada pelos Racionais no festival: Minha palavra vale um tiro. Eu tenho muita munição.

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