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A herança de Clinton

(*) Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 3 min

Finalmente, a mídia americana começou a realizar o inventário crítico dos dois mandatos do jovem ex-presidente americano, Bill Clinton. Até o final do ano passado, apesar dos escândalos de que foram protagonistas Paula Jones e Mônica Lewinski, o saldo era amplamente favorável ao democrata. Efetivamente, é difícil, senão impossível, arranhar a imagem de um líder que governou o país mais poderoso do planeta durante oito anos, inseridos num período um pouco maior (uma década), durante o qual a economia manteve-se num crescimento constante e vigoroso.

Num aparente ato de mea culpa, Clinton deixou escapar, em palestra realizada na Warwick University, na primeira semana de janeiro, na Grã-Bretanha, relatado pelo insuspeito The Washington Post, traduzido e publicado pelo O Estado de São Paulo, em sua edição de 13 de janeiro passado, que se os países mais ricos eliminassem os subsídios à agricultura, dando oportunidade aos agricultores do mundo todo, só isso aumentaria a renda dos países em desenvolvimento em US$ 20 bilhões por ano.

Vale a pena reproduzir o comentário do famoso diário americano: Este é o Clinton no que há de melhor e pior. Ele quebrou o tabu, tudo bem. Mas só fez isso quando está a ponto de deixar a Presidência. Sim, ele sabe a verdade. Mas durante os oito anos de seus mandatos, nada fez para mudar a situação.

Ainda de acordo com o Washington Post, durante o governo Clinton, os Estados Unidos gastaram, em média, cerca de US$ 14 bilhões por ano em ajuda aos fazendeiros, um aumento considerável em relação a seu antecessor, George Bush. Os restantes US$ 6 bilhões correspondem aos subsídios concedidos anualmente aos agricultores pelos outros países mais ricos, com destaque especial para a França, no âmbito da União Européia; e o Japão.

O influente diário americano coloca o dedo na ferida ao criticar a hipocrisia dos americanos e demais desenvolvidos em relação aos emergentes e pobres. Durante pelo menos duas décadas, diz o artigo, os governos americanos vêm dizendo aos países em desenvolvimento que a exportação é a saída para se livrarem da pobreza. Mas, prossegue o articulista anônimo, com impressionante lucidez, enquanto os EUA e outros países ricos pregam essa ladainha, ao mesmo tempo criam dificuldades para que tal modelo seja aplicado.

A conclusão a que chega o articulista americano é de uma surpreendente franqueza. A imposição de tarifas e cotas tem impedido o acesso de produtos agrícolas dos países em desenvolvimento aos mercados ricos. E os subsídios agrícolas dos países ricos mantêm a produção maior e os preços mais baixos do que em circunstâncias normais, reduzindo a possibilidade de os países mais pobres viverem da agricultura.

E tudo isso, afirma o diário americano, pelo simples motivo de que, embora, nos Estados Unidos, a agricultura represente menos de 3% da força de trabalho e cerca de 5% no Japão e na União Européia, os respectivos governos não têm força para enfrentar os poderosos lobbies dos agricultores.

Nos Estados Unidos, por exemplo, conclui o artigo, o agribusiness tem mais influência nos governos do que a indústria automobilística e o setor químico. Em 1996, o Congresso americano tentou disciplinar o setor agrícola, mas a ação dos lobbies fez com que os subsídios continuassem a se expandir.

Em resumo, conclui o Washington Post, Clinton percebeu o que isso significa para os países em desenvolvimento, mas, mesmo assim, nada fez.

Nossa esperança é que o presidente George W. Bush empreenda um sério esforço para acabar com isso. A propósito, recentemente, ele deu a entender que conhece o problema, ao afirmar que a questão do livre mercado não é apenas monetária, mas moral.

(*) O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM). E-mail: presidencia@advbfbm.org.br

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