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Discussão Sobre o Fórum Social Mundial

Roque José Ferreira
| Tempo de leitura: 4 min

A realização, em Porto Alegre, sob os auspícios da Prefeitura e do Governo do Estado, do Fórum Social Mundial, a partir de hoje, ora ocupando páginas nobres de informação e opinião na grande imprensa, merece uma reflexão de todos aqueles que o enxergam com entusiasmo. O Manifesto publicado pelo seu Comitê Organizador, com certeza deve ser considerado sua base política. Em oposição às políticas neoliberais, ele propõe a formulação de alternativas para a superação da dominação dos mercados.

Do que se trata? O Manifesto tem toda ênfase na presença e no papel das ONGs, e não obstante convida a uma larga participação de sindicatos, partidos e organizações democráticas.

Para que fim? O Manifesto faz tudo convergir à observação de que as grandes instituições internacionais têm, a partir de agora, de prestar contas a opinião pública. Da mesma forma, os governos precisam saber que essa vigilância será exercida.

A montanha pariu um rato. O documento do Fórum tem toda uma fraseologia, às vezes estridente, sobre a política devastadora da globalização liberal e da ditadura dos mercados. Mas ele termina sem qualquer proposta realmente transformadora.

Assim, o megaevento que pretende marcar o século, ou o milênio, conforme certos comentaristas, em relação às instituições internacionais e aos governos que servilmente executam os planos ditados pelo FMI e o Banco Mundial, conclui.... lembrando que a vigilância será exercida.

Não há aí, efetivamente, nenhuma alternativa real à vista. Basta ler este e o demais documentos constitutivos do Fórum.

Pois, como é possível falar de resistência à globalização neoliberal sem propor-se a combater as privatizações que, em todo mundo, são um instrumento dos capitalistas e especuladores contra as nações, os povos e os trabalhadores?

Como é possível falar de resistência à globalização neoliberal sem estabelecer um compromisso de defesa dos direitos e garantias sociais arrancados por dois séculos de luta de classes - como aqueles registrados nas Convenções da OIT e nas legislações trabalhistas e previdenciárias que, através da flexibilização e desregulamentação, em todo mundo as multinacionais, os especuladores e os governos a seu serviço querem pilhar e desmantelar?

Ou ainda, como é possível falar de resistência à globalização neoliberal sem apontar para o fim deste mecanismo de saque das nações, que é o pagamento das dívida externa?

Estas ausências deliberadas são significativas dos objetivos do Fórum. Ele está completamente inscrito na busca de dar face humana à globalização.

Não se trata de defender os direitos, nem cancelar a dívida externa, nem reestatizar as empresas privatizadas, ou confiscar os lucros especulativos, ou cancelar o pagamento da dívida externa. O que representaria um decidido combate contra o imperialismo.

Não. O Fórum parece buscar um meio de conviver com o imperialismo, acomodar-se com suas instituições, seus governos, tal como fazem as ONGs, para esse fim financiadas pelo Banco Mundial, instituições internacionais e governos.

É para isso que se quer arrastar sindicatos e partidos, para a integração. Não é surpreendente, portanto, que o próprio site do Banco Mundial na Internet apresente assim o evento:

Este Fórum foi instituído como sendo a versão popular da cúpula econômica anual que se realiza em Davos, na Suíça, com o objetivo de mobilizar contra os impactos sociais considerados negativos das políticas econômicas neoliberais e da globalização.

Assim, para financiar a versão popular de Davos é bem compreensível o que explica a edição de 3 de Dezembro do O Estado de S. Paulo - o financiamento do Fórum vem de diversas entidades, uma inclusive ligada a uma das multinacionais que marca o liberalismo: a Fundação Ford.

O Manifesto do Fórum se propõe a erigir um contra-poder planetário. Mas contra o que mesmo vai se orientar este poder, se ele não se fixa, como vimos, no objetivo de extinguir nem o FMI nem a OMC, nem os acordos de pagamento da dívida ou de livre-comércio, erigidos no âmbito dessas instituições?

Quando o Manifesto afirma que a intervenção popular em todo o mundo visa hoje (sic) uma democracia participativa que renove a representativa, aí uma questão se coloca:

Não se está abandonando a representação hoje diferenciada dos interesses de classe dos trabalhadores e oprimidos - base de uma democracia - pela dissolução participativa das organizações de classe na massa amorfa das ONGs?

E não seria este um novo tipo corporativismo, contrário à democracia, recoberto de participacionismo? Todos participam, mas: os capitalistas seguem capitalistas, o imperialismo segue recebendo sua dívida, enquanto dos trabalhadores, dos pobres e espoliados se tira o couro em troca de compensações.

Um outro mundo é possível, sim. À condição de se combater pelo fim do sistema imperialista. (Roque José Ferreira- Diretor do Sindicato de Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de Bauru, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso e Primeiro Suplente de Vereador do PT-Bauru)

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