Há um mistério profundo nas mãos que entregam cartas!
Disse-me um dia um velho carteiro:
Estas mãos, afeitas a entregarem mensagens, sabem humanamente perscrutar notícias. Estas mãos se mancharam no sangue vivo dos jornais que entregavam e que jorrava pelos crimes e tragédias noticiadas.
Mas também se lavaram nas lágrimas de alegria incontida que brotavam de olhos surpresos de amor; de olhos que liam as cartas que levei. Ah! Estas minhas mãos que entregaram cartas!
Quantas vezes, adivinhando tristezas, minhas mãos se estendiam trêmulas ao destinatário. E eu preferia jogá-las pela soleira das portas, para não sentir-me cúmplice da má notícia! Mas insistia na campainha da porta, ou a gritar repetidas vezes carteir-o-o-o, para entregá-las pessoalmente à jovem ansiosa ou à mãe aflita. E eu gostava de vê-las beijar o envelope antes de abri-lo. Eu já adivinhava a notícia e a renovação das promessas de amor.
Ah! Estas minhas mãos que entregam cartas! Estas mãos levaram mensagens consolidando tratos e provocando distratos. Foram instrumentos indiretos de lágrimas, mas também de alegrias. Estas mãos disseram - chega! E disseram - vá! Elas trouxeram a notícia do agravo, da intriga e do desamor. Mas não são criminosas!
Elas trouxeram a paz, a tranqüilidade, o desagravo, a reconciliação e a bênção cheia de esperanças. Elas comunicaram a morte, sim; mas noticiaram o nascimento e a vida!
Minhas mãos foram instrumentos no mundo. Com elas escrevi a prece que desejo aos carteiros de hoje: Fazei, Senhor, que eu leve ao jovem triste a carta que diz: volte, meu filho! E que eu seja o mensageiro da resposta: eu voltarei, meu pai! Fazei, Senhor, que eu leve àquele endereço - mesmo em dia de chuva - o sol da esperança, na notícia que aquece.
Fazei, Senhor, que eu seja o carteiro da boa notícia. Fazei, enfim, meu Deus, que eu possa, um dia, espalhar por todas as casas, em todas as ruas, os jornais que confirmem em grandes manchetes a grande esperança da humanidade: A paz reina entre os homens e a Terra é a ante-sala dos céus! (Homenagem da Apae - Bauru)