Nunca foi tão fácil licenciar um automóvel. Liguei para um despachante da cidade e recebi a notícia: R$ 38,00 para realizar o serviço. Claro que eu não teria nenhum trabalho, inclusive o licenciamento seria feito sem a necessidade de locomoção até o despachante ou até a Ciretran. Não optei por esta comodidade da vida moderna. Uma segunda opção me aguardava; e eu sairia de casa apenas para pagar, protocolar e buscar o documento mencionado.
Na agência bancária, sem nenhum custo adicional, foram pagas as taxas, por sinal exorbitantes, para o licenciamento do nosso automóvel. Depois, uma rápida passada pela Ciretran e, no dia seguinte, o documento estava na mão. Soube pela imprensa que alguns despachantes da cidade andam reclamando da demora para expedição de documentos na delegacia de trânsito local. Para mim, a demora foi suficiente para a execução do serviço. Coisas da modernidade.
Mesmo assim, pude notar que a referida delegacia está muito longe do que se pode chamar de modernidade. Escondida num gueto da praça D. Pedro, a delegacia funciona precariamente em sua estrutura, apesar do trabalho do delegado e de seus funcionários saírem a contento. Um emaranhado de caixas, papéis, arquivos-mortos e outras peças, que lembram os velhos escritórios de contabilidade, escondem a presteza dos funcionários do local. A Ciretran precisa se modernizar, e isto é papel do Estado.
Dentro deste mesmo aspecto, quero retratar outro momento que envolve as coisas do Estado e o nosso trânsito. Em algumas idas e vindas a Capital paulista, ficamos estarrecidos com o verdadeiro assalto que se estabelece hoje nas rodovias do nosso Estado. Os pedágios representam um menosprezo a capacidade humana de pensar e discernir. Há algum tempo, cobrava-se o pedágio em um dos sentidos da rodovia Castelo Branco; hoje, cobra-se nos dois sentidos. Um aumento de 100%, pois o mesmo preço que cobrava-se na ida, cobra-se na volta. Pagamos o dobro e nem falamos nada.
Estrebuchar-se com o funcionário do pedágio é uma ação apenas de desabafo. Eles não tem nada com isso. O pior é que além de caro, pouco se tem feito pelas rodovias paulistas. Assim é fácil: ganho uma licitação, cobro o pedágio e com o dinheiro faço as obras necessárias, mesmo que a lei me diga o contrário. Esta é uma das aberrações da modernidade brasileira. Só ums exemplo: Bauru-São Paulo, R$ 44,00 de pedágio para os veículos comuns.
Em qualquer cidade que se vá no estado de São Paulo, partindo de Bauru, é assim. Campinas, Ribeirão Preto ou São Paulo. O assalto é um só. Pior para nós, muito pior para os caminhoneiros e para o bolso do consumidor. E poucas vozes se levantam contra este estado de coisas. Paga-se muito e recebe-se pouco. Pedágio, IPVA, licenciamento... E as ruas e estradas continuam esburacadas e com poucas condições de uso. É a modernidade a serviço de todos. Os pedágios e o licenciamento são automatizados.
Estes são apenas dois exemplos de desperdício do dinheiro público. Modernizar o Estado não significa somente usar computadores e tecnologia de ponta. É preciso que se invista nos servidores estaduais e na população. Dinheiro tem, é preciso saber usar; o Palácio dos Bandeirantes e a Assembléia Legislativa sabem muito bem disso.
(*) Reginaldo Tech é professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp/Bauru