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Mão-de-obra feminina domina empresa

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

O tão falado avanço da mulher no mercado de trabalho se manifesta com mais intensidade em algumas áreas específicas. Ao contrário do que se pode pensar a princípio, até preconceituosamente, essas áreas não estão relacionadas à culinária ou qualquer serviço doméstico ou ligado à família. As mulheres estão aos poucos dominando os galpões das indústrias, principalmente as que trabalham com produtos ou componentes eletro-eletrônicos. A razão disso é que esse tipo de atividade exige delicadeza e paciência, características que sobram nas mulheres e nem tanto entre os homens.

A grande presença de mulheres nas linhas de montagem e de produção de indústrias de eletro-eletrônicos, há muitos anos, não é novidade nos Estados Unidos, no Japão e até mesmo na Zona Franca de Manaus. Em Bauru, algumas empresas trabalham com mão-de-obra majoritariamente feminina como a Provence, que produz roupas íntimas para mulheres. Trabalho com mulheres nas lojas porque acho que um homem inibiria as clientes que vão procurar por peças íntimas, e na fábrica, porque geralmente quem costura é mulher, explica Marinês Manflin, proprietária da empresa que no total emprega mais de 40 mulheres. O mesmo acontece na Bruna, que confecciona semijóias e bijuterias, onde a mão-de-obra é majoritariamente composta por mulheres. Em ambos os casos, no entanto, o produto das empresas está voltado especialmente para o próprio público feminino. O caso da eletrometalúrgica Indel é diferente. A empresa baurense é uma das poucas do País a produzirem elo-fusíveis, componentes básicos de segurança para empresas de energia elétrica, pois protegem os transformadores (e conseqüentemente o resto da rede) no caso de uma sobrecarga de energia. Em atividade há 14 anos, a Indel possui mais de vinte mulheres empregadas na produção das partes mais delicadas dos elo-fusíveis. Os homens também têm vez na empresa, mas trabalham em outra unidade, na produção da corduália que compõe os elo- fusíveis, uma parte que não exige tanta meticulosidade. A confecção final da peça, que por se tratar de um item de segurança não pode ter falhas, fica a mesmo a cargo da equipe feminina.

Trabalhamos com mulheres desde que a fábrica existe, porque elas têm mais paciência e delicadeza que os homens para executar trabalhos manuais, explica Isaura Rodrigues de Souza Gonzaga, coordenadora de produção. Segundo Edson Mendes, responsável pela garantia de qualidade da empresa e pelas vendas internacionais, a diferenciação de sexos não é uma questão de segregação ou preconceito, mas baseada em um fator biológico. Estudos realizados na Inglaterra comprovaram que as mulheres se dão melhor no desempenho de múltiplas funções. Elas também têm 50% mais de capacidade de concentração e acuidade do que os homens. Uma mulher faz crochê, vê televisão e conversa com você ao mesmo tempo. Que homem consegue segurar as agulhas de crochê direito por muito tempo?, É uma questão de natureza, justifica. Na opinião dele, a mulher deve ocupar cada vez mais espaço no mercado de trabalho, dentro das fábricas, à medida em que a tecnologia for facilitando as atividades. No futuro, as mulheres vão dominar as fabricas, prediz.

O proprietário da Indel, Antonio Fortunato Brustello, é taxativo: Sou fã do trabalho feminino. Ele não hesita em dizer que grande parte do sucesso comercial da empresa, que está começando a exportar seus produtos e vai participar da próxima Feira Industrial de Hannover, na Alemanha, se deve ao fato de ter um setor completamente coordenado por mulheres. Segundo Brustella, a presença feminina resulta na qualidade que acaba sendo o diferencial em relação aos concorrentes.

Sem chefe

Além de dominarem o principal setor da empresa, as mulheres na Indel trabalham num sistema de auto-gestão, no qual não possuem chefes. Elas sabem o que têm de fazer e fazem sem que ninguém precise cobrar, elas sabem das suas responsabilidades na empresa, diz o proprietário. Na unidade masculina da empresa não há o mesmo sistema. Estamos implantando, mas leva tempo para os homens se adaptarem a isso. As mulheres são mais disciplinadas, explica Brustello.

Apesar do trabalho metódico e repetitivo, a grande maioria das funcionárias da Indel trabalha no local há mais de dez anos. Elas gostam do que fazem, diz o proprietário, lembrando que nunca uma funcionária sua se queixou de algo dentro da empresa. Alessandra Moisés, que trabalha lá há 7 anos e meio, confirma: Gosto de mexer com pecinhas pequenas e, por isso, não me canso, diz pacientemente, enquanto aperta um pequeno fio de cobre em torno de outro filamento metálico. Para Fátima Silvério, há 11 anos na Indel, o segredo para passar o dia todo mexendo com estruturas tão delicadas é ter paciência, Eu tenho muita.

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