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Diretor diz que pensou só na família ao cumprir exigências

(*) Renato Chimirri
| Tempo de leitura: 4 min

Araraquara - O seqüestro de familiares do ex-diretor da Penitenciária de Araraquara, Leandro Pereira, inaugurou uma prática de resgate de presos até então inédita no Estado. A exigência de que cinco detentos fossem libertados do presídio local em troca da vida dos familiares imita situações até então vividas por gerentes de bancos em troca de dinheiro.

Pereira contou, anteontem, que a família ainda está muito abalada com o que aconteceu. Ele afirmou que a única coisa que conseguia pensar era em cumprir a exigência da quadrilha para libertar os familiares. Apesar dos 11 anos como diretor da prisão e 24 anos no serviço público, ele afirmou que o lado profissional ficou bloqueado. Nesse momento, o emocional bloqueia qualquer medida profissional ou racional, disse.

O pai de Leandro Pereira foi abordado e rendido, no sábado, em sua casa por volta das 17 horas por um homem vestido de carteiro. A quadrilha, que estava usando máscaras, levou todos os parentes do então diretor para uma casa, localizada na Vila Nery, em São Carlos. Os assaltantes, por intermédio da irmã de Pereira, o avisaram sobre o fato por volta das 21h30 e exigiram que o diretor libertasse cinco presos. Os criminosos foram libertados por Pereira por volta de meia noite de domingo. Pereira só ficou sabendo do paradeiro de seus familiares quando o cunhado lhe telefonou, às 3h10 da manhã de domingo.

Em entrevista, o diretor da Penitenciária contou em detalhes alguns pontos sobre o caso. Leia abaixo, os principais trechos:

Pergunta - Como o senhor fez para libertar os presos? Leandro Pereira - Expliquei para dois funcionários o que estava acontecendo no momento em que liberei os presos. Antes não disse nada. (Os criminosos foram levados até uma perua Kombi que estava no interior do presídio e saíram abaixados dentro do veículo.)

Pergunta - Seu pensamento estava voltado apenas para o bem-estar dos seus familiares?Leandro Pereira - Nesse momento, o emocional bloqueia qualquer medida profissional ou racional para a solução do fato.

Pergunta - Não existiu nenhum tipo de violência física contra o senhor e sua família?Leandro Pereira - Em nenhum momento isso aconteceu, apesar da violência do fato. Meus familiares foram tratados normalmente. Não aconteceu nada durante o período em que estiveram como reféns da quadrilha. Isso até contribuiu para que o trauma não fosse tão grande.

Pergunta- Em algum momento houve suspeitas de que a quadrilha estaria seguindo sua família e premeditando a ação?Leandro Pereira - Que isso foi premeditado não tenho dúvidas. Mas não notei nada de diferente na rotina do presídio.

Pergunta- É confirmada a informação de que um celular apareceu misteriosamente no presídio?Leandro Pereira - Sim. Ele saiu junto com um elemento (o celular estava junto com Marcio Henrique Evaristo, o Nenê, que também sabia que seria transferido para outro presídio). Deduzo que ele tenha entrado por meio de visitantes ou de funcionários. Existem muitas maneiras para isso acontecer.

Pergunta- Seria possível que algum funcionário estivesse colaborando com algum detento da Penitenciária?Leandro Pereira - Não descarto nenhum hipótese. Tudo será motivo de investigação. Apesar disso, dou uma opinião preliminar: acho que não teria acontecido nada disso. Porém, tudo terá que ser apurado.

Pergunta- Todos os assaltantes são ligados ao PCC (o Primeiro Comando da Capital, facção criminosa que teria sido criada para controlar a vida nos presídios do Estado e realizar resgates de condenados)?Leandro Pereira - Não sei de onde tiraram essa história de PCC. A imprensa vem colocando de uma maneira um fato absoluto. Ao contrário, o que existe de fato comum é apenas que eram assaltantes de bancos. Tem rapaz ali que nunca esteve preso em nenhuma penitenciária. Alguns repórteres estão tentando valorizar um fato que não apresenta nada disso.

Pergunta- O senhor continua como diretor do presídio?Leandro Pereira - Ontem (domingo), coloquei o caso nas mãos da Secretaria de Administração Penitenciária. Não sou mais diretor. Digo isso, independente de saber qual medida poderia ser tomada. Essa foi uma atitude particular e não me arrependo de nada do que fiz. (O vice-diretor, Ocimar Eiras, que substituia Leandro - que estava em férias - também foi afastado anteontem.)

Pergunta- Existe algum temor de sua parte com relação a sindicância instaurada para apurar o caso?Leandro Pereira - Ao contrário, tenho um histórico funcional de mais de 24 anos no Estado e era coordenador regional e diretor de presídio há 11 anos. Não me arrependo de nada.

Pergunta- O que aconteceu na reunião com o corregedor da Secretaria de Administração Penitenciária Clayton Alfredo Nunes (o corregedor passou o dia de anteontem em Araraquara acompanhando a sindicância sobre a libertação dos presos)?Leandro Pereira- Passei tudo o que aconteceu. Esse procedimento é uma praxe que existe e agora serão tomadas as medidas cabíveis.

(*) Renato Chimirri, especial para o JC

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