Uma parada de ônibus intermunicipal na rodovia Bauru-Ipaussu, próximo ao trevo de acesso a Piratininga, foi transformada em moradia por quatro pessoas que saíram de Ponta Grossa - PR com destino a São Carlos em busca de empregos.
O espírito aventureiro uniu quatro pessoas para uma viagem que pode nunca ter fim. Uma parada de ônibus intermunicipal na rodovia Bauru/Ipaussu (SP-225), próximo ao trevo de acesso a Piratininga, foi transformada em moradia dos viajantes que já percorreram uma longa estrada: de Ponta Grossa, no Paraná, até o local.
Matilde dos Santos, 40 anos, é a única mulher do grupo e viaja de 30 a 40 quilômetros por dia, empurrando um carrinho com todos os pertences. Somos uma família. Estamos chegando de Ponta Grossa e indo para a cidade de São Carlos, onde pretendemos trabalhar com reciclagem, revelou.
Ela conta que a viagem de Ponta Grossa até o trevo de Piratininga durou mais de um mês. Tivemos que parar por causa da chuva. Pretendemos ir embora na quinta-feira (amanhã).
A parada de ônibus foi usada como teto. Nós estendemos a lona para nos abrigarmos do vento e da chuva. A mulher diz que são três homens, um deles é seu marido, e ela. Eu e meu marido começamos a viajar pelas estradas. No caminho encontramos mais três que toparam a parada. Estamos todos juntos.
A rotina dos viajantes inclui os afazeres domésticos. Cada um tem uma função: um e responsável em apanhar lenha para cozinhar; outro acende o fogo e o terceiro ergue o acampamento. Matilde é encarregada de cozinhar e lavar a louça. Segundo ela, cada um tem uma história, geralmente de desilusão. A gente se desgasta com a rotina, com as formalidades e parte para essa vida. Viajando e conhecendo gente nova, a gente quebra a rotina e não enjoa de viver, justifica.
Cada dia em um lugar, sem nada que me prenda. Com essa filosofia, Roberto Daniel, 44 anos, vive há 15 anos como um nômade. Eu matei um homem. Cumpri a pena e, quando saí da cadeia, minha mulher já tinha outro marido. Me desiludi com a vida. Estou na estrada. Sou livre. Sempre sonhei com essa vida. Já fui até hippie, recorda.
Daniel, que é desenhista, conta que abandonou a família, mas que quando sente muita saudade, se esforça e vai visitá-la. Quando sinto muita saudade das filhas e dos netos, junto um dinheiro e vou até eles, que moram em Rondônia.
Ele lembra que já viajou pelo Brasil todo. Cada hora estou em um lugar. Encontrei esse pessoal perto de Santa Cruz do Rio Pardo e estou indo para São Carlos com eles. Estou ficando porque há respeito entre nós. Quando não der mais para viver juntos, vou embora para outro lado, anuncia.
Ontem, só Matilde e Daniel estavam na casa. Temos tudo o que precisamos, TV, rádio, cachorro, utensílios de cozinha, roupas de cama, mesa e banho. Antes de parar, analisamos o local para ver se há mina de água por perto, para cozinhar e nos banharmos.
A mulher frisa que o melhor horário para viajar é à noite. O trânsito nas rodovias é mais calmo e podemos andar mais tranqüilamente. Não incomodamos ninguém, vivemos livre e Deus nos protege, agradeceu.