Uma réplica fiel de uma ferrovia em funcionamento e uma exposição completa de peças rodantes e de ferramentas de grande porte em desuso. Um espaço turístico que provavelmente entraria no roteiro dos principais museus ferroviários do País. Este deveria ser o cenário do galpão abandonado que margeia a quadra 1 da rua Júlio Prestes e traz incômodos para os moradores do local.
Segundo um projeto elaborado em 1987, numa parceria entre a Prefeitura e o Preserfe - órgão de preservação do patrimônio histórico ferroviário do Ministério dos Transportes -, o galpão acomodaria o segundo módulo do Museu Ferroviário de Bauru. O mesmo projeto criou o primeiro módulo, situado na rua 1.º de Agosto, cujas atrações são os objetos, fotos e outras relíquias que marcaram a época áurea da ferrovia no município. A idéia, até hoje, está pela metade.
Gilson Miguel Aude, responsável pelo Museu, conta que a proposta do segundo módulo era ousada e onerosa. O espaço interno do galpão, com cerca de 1.200 metros quadrados, teria todos os elementos de uma ferrovia, como cancelas, passagens de nível e sinaleiros. Um trenzinho levaria os visitantes do primeiro módulo até lá e percorreria o interior do galpão numa minilinha férrea. Também teríamos painéis com maquetes de como foi a construção da ferrovia em Bauru, com bonecos e ferramentas. Teríamos ainda três locomotivas em exposição (a número 1 está no Museu da 1.º de Agosto, a 278 aguarda restauração e a 401 acabou sendo transferida para Campinas, onde recebeu a merecida reforma). O teto do galpão seria adaptado em pistofibra, um material caro impermeabilizador e com propriedades acústicas, enfim, seria um projeto grandioso, detalhou, lembrando que o orçamento estimava, naquela época, algo de mais de US$ 500 mil. Na praça externa defronte ao galpão - construído na década de 10 para estocar café e grãos -, onde hoje se realiza a Feira do Rolo, seria construído o Memorial do Ferroviário, com estacionamento para carros e ônibus de turismo. O memorial seria uma homenagem aos cerca de 13 mil ferroviários que passaram pelas antigas NOB, Cia. Paulista e Sorocabana.
As adaptações necessárias seriam realizadas em parceria entre as ferrovias que operavam no município e a Prefeitura, ficando responsáveis, respectivamente, pela cessão de mão-de-obra e material. O alto custo fez com que o projeto ficasse para outro momento mais favorável, o que nunca aconteceu, particularmente por conta da crise financeira que abalou a Prefeitura nos anos seguintes e do processo de privatização das ferrovias.
Sem ilusões, Aude sabe que a concretização do segundo módulo seguindo a proposta original é remota, para não dizer impossível. Só se houvesse um grande movimento apoiado por grandes empresas, ponderou. A viabilidade, entretanto, poderia estar mais palpável se uma nova proposta fosse apresentada. Realmente, é de dar dó a situação do galpão e da velha estação. Chega a ser temeroso ir até lá para uma visita (ele refere-se à presença de desocupados no local), o que causa preocupação em nós, enquanto cidadãos bauruenses. Deveríamos começar a pensar em uma outra forma mais barata de utilizar o local antes que a ação do tempo impeça o reaproveitamento, considerou.
O antigo galpão de estocagem esteve cedido em comodato à Prefeitura de 1987 até 1997. O ex-prefeito Antonio Izzo Filho tentou desapropriar o imóvel, mas a empreitada esbarrou em questões legais, o que fez o patrimônio voltar às mãos da Fepasa. Com a privatização, o prédio foi incorporado à Rede Ferroviária Federal S/A, uma vez que a concessionária Ferroban só adquiriu a parte operacional da ferrovia. Pelo que se sabe, o galpão, assim como outros imóveis da Rede, está em processo de liquidação e deve ser levado a leilão.