Geral

O pecado da imprevisão

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 2 min

Em uma nação financeiramente problemática como a nossa, não se admitiria atirarem-se dólares pela janela, como ultimamente se tem feito, através de tantas implosões de edifícios e viadutos públicos em cidades e rodovias. É preciso crer que não porque se o País não tem com que sair do atoleiro do débito externo e nem mesmo dos juros do principal como mandar para os ares obras que custaram os olhos da cara, a fim de dar lugar imediato a outras, para cuja construção terá a sociedade que desembolsar dinheiro caro na forma de tributos com os mais estapafúrdios rótulos e roupagens?

Para uma consciência sadia é sandice o desperdício. Todos precisam pensar assim, inclusive, naturalmente, os administradores de bens públicos e particulares. Contudo, ainda que pensem dessa maneira, continuam com a condenável prática das implosões. Só na duplicação de rodovias transformaram em amontoados de concreto nada menos de seis viadutos. E ainda falta um outro, totalizando então os sete programados, número que parece mentira, tem cara de mentira, mas não é... Seria pecado administrativo demolir essas passarelas rodoviárias se elas não se enquadram nas exigências técnicas da duplicação? Não, certamente não. Não se adaptariam à largura das novas pistas e, portanto, teriam mesmo que dar lugar a outras. Não se vê nisso nenhum pecado. Vê-se, porém, no estrabismo da nossa política rodoviária, que jamais trabalhou com o olhar bem direcionado para o futuro e, conseqüentemente, segue cometendo a heresia de construir hoje para demolir amanhã, ao invés de projetar obras duradouras, com dimensões e estruturas condicionadas para atender por muito tempo ao vertiginoso deslanchar da demanda, para que não se tornem obsoletas a curto prazo, antes de efetuarem o pagamento do seu custo real.

Diz-se que, na administração das coisas, previsão e projeção andam de mãos dadas por aí. E as detonações nas estradas confirmam o acerto da expressão. A engenharia rodoviária falhou na previsão da demanda que as estradas teriam de suportar em futuro não distante, construiu-lhes um mínimo de pistas e aí está ela necessitando refazer o que, parecia, tinha feito em definitivo. Não está certo isso. Não está porque desmanchar o que foi projetado sem visão do futuro significa atirar ao vento boas parcelas do dinheiro público, acrescidas de outras tantas, que os novos viadutos e as novas estradas vão exigir. É a nossa opinião.

(*) N. Serra, jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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