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Pais devem impor limites aos filhos a partir do nascimento

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Houve um tempo em que um simples olhar dos pais significava o cumprimento de uma ordem. A obediência aos pais e às pessoas mais velhas era sagrada. Os jovens faziam questão de mostrar que tinham educação e respeito. A sociedade mudou e as gerações criadas sob o domínio tirano dos pais, hoje são pais e avós de uma geração tida como sem limites. Fórmulas mágicas para educar filhos, não existem, mas procedimentos adotados quando o filho é ainda, um bebê, podem garantir uma adolescência mais tranqüila.

Confundir autoridade com autoritarismo é uma forma rejeitada pelos jovens e um erro clássico cometido pelos pais, alerta a psicóloga Andréia Georges. É necessário que os pais tenham autoridade. Ter autoridade significa ouvir, respeitar, conversar e agir com firmeza e até endurecer, se a situação exigir. Já o autoritarismo é o controle, a força física, sem o diálogo.

Usar do autoritarismo para fazer com que os filhos obedeçam aos pais, método usado há mais de 30 anos, não funciona com essa geração. A sociedade mudou e esses pais podem estar repetindo a educação que receberam. O que não pode ser esquecido é que naquela época, a mãe não trabalhava fora e tinha mais tempo para se dedicar a família. Hoje, tanto o pai como a mãe estão fora de casa, trabalhando. A situação econômica, a correria do dia a dia, o estresse faz com que eles não tenham tempo para dedicar-se à educação dos filhos. Alguns perdem a linha mestra da educação dos filhos e só vão sentir que agiram erradamente quando os filhos atingem a adolescência.

Os tais limites, tão cobrados dos adolescentes, deveriam ter sido ensinados desde o nascimento, segundo a psicóloga. O limite tem que ser ensinado quando a criança nasce e não na adolescência como muitos pensam. Na infância, os pais têm que agir com firmeza, mesmo que a criança chore e faça birra.

Dar limites é ensinar que os direitos são iguais para todos, na opinião dela. Por isso, a importância do diálogo e das explicações. A criança precisa saber por que está sendo repreendida. Precisa saber que o direito dela termina onde começa o do outro.

Saber a diferença entre os desejos e as necessidades é básico para a educação de uma criança. A criança tem desejos e necessidades. Comer quando está faminto é uma necessidade. Mas, comer chocolate na hora do almoço, é puro desejo. Sabendo disso, os pais devem selecionar os pedidos e agir com firmeza.

A psicóloga lembra que a educação é um processo de compreensão e formação do cidadão. Ninguém pode respeitar o seu semelhante se não aprender quais são os seus limites. Dizer não ao filho, explicando os motivos é uma forma de educar.

Fazer a criança entender que a cada direito compreende um dever é uma alternativa que costuma dar bons resultados a longo prazo. Tem que existir uma troca. Troca no sentido de trocar opiniões, respeitar um ao outro. Tentar comprar o filho com presentes não é aconselhável.

Geração Peito de Frango

Pioneira na discussão do papel dos limites na educação, a professora Tania Zagury foi a primeira educadora no País a alertar para as consequências sociais da liberdade excessiva e da falta de autoridade dos pais. Foi ela quem criou a expressão geração peito de frango, para caracterizar os pais de hoje que, no passado, não tiveram o direito de expressar-se e que, no presente, pela postura excessivamente psicologizante que adotaram, tornaram-se tímidos e sem autoridade, permitindo que, em muitos casos, seus filhos se transformassem no que chamou pequenos tiranos.

No livro Limites sem trauma, a educadora dá boas dicas aos pais para enfrentar a situação sem perder o controle. Em um dos capítulos, dedicados ao limite, ela diz: dizer sim sempre que possível e não sempre que necessário.

Só dizer não aos filhos quando houver uma razão concreta, fazer a criança ver o mundo com uma conotação social(con-viver) e não apenas psicológica (o meu desejo e o meu prazer são as únicas coisas que contam) são dicas que a educadora dá aos pais.

A criança que não aprende a ter limite cresce com uma deformação na percepção do outro. Só ela importa, o seu querer, o seu bem-estar, o seu prazer. O egocentrismo, natural nos primeiros anos, mas que deve diminuir, nesses casos, nessa etapa, está exacerbado, só cresce. As conseqüências são muitas e frenqüentemente bem graves, segundo a autora do livro.

Dentre as conseqüências ela enumera:

* desinteresse pelos estudos* falta de concentração* falta de capacidade de suportar quaisquer mínimas dificuldades* falta persistência* desrespeito pelo outro-colega, irmãos, familiares e pelas autoridades em geral

Filhos recorrem à DDM

A Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) registra mensalmente uma grande quantidade de reclamações de filhos que são repreendidos pelos pais. Em 90% delas, os pequenos tiranos querem obrigar os pais a satisfazer seus desejos.

Segundo a titular da DDM, Rejane Ortiz Borro, os pais chegam desesperados para esclarecer a situação. Eles não sabem mais como agir. Os filhos não têm limites, querem impor suas vontades.

Na opinião dela, a partir dos anos 90, quando foi implantado o Estatuto da Criança e do Adolescente, os filhos ganharam espaço na sociedade. Eles têm direitos, porém têm deveres. Mas, enxergam só os direitos.

Baseado no príncipio de usar só os direitos e não ver os deveres, os adolescentes costumam recorrer à delegacia quando os pais tomam uma atitude mais firme, ou perdem a paciência e desferem um tapa. Os adolescentes enfatizam o resultado da discussão, mas não contam o que fizeram para que a situação chegasse naquele ponto.

Os pais, em não raros casos, pedem orientação da delegada para agir com os filhos. Quando o adolescente é do sexo feminino, o problema mais comum é o namoro mais avançado. Quando o adolescente é do sexo masculino, o problema é relacionado a entorpecente.

Segundo a delegada, não são muitos os casos de abuso dos meios de correção. Os pais tentam educar como foram educados. Nós entendemos e procuramos orientá-los. Acreditamos que o diálogo é o melhor caminho, mas há situações que são irremediáveis.

Dentre as situações mais graves, Rejane cita: as meninas que querem namorar sem dar satisfação aos pais, costumam fugir de casa, quando os pais proibem. Quando o caso chega aqui nos conversamos com ambas as partes. Pedimos aos pais para serem firmes e não exagerarem na correção. Pedimos aos filhos que respeitem os pais e lembrem-se que devem respeito a eles.

A delegada lembra que há casos extremos que os pais não agüentam mais a situação. Eles chegam aqui pedindo para internarmos o filho(a) na Febem, porque os problemas se acumulam e eles já não conseguem resolvê-los.

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