Com a reunião das nações mais ricas, em Davos, e o encontro dos preocupados com a pobreza, em Porto Alegre, os meios de comunicação se enchem de comentários sobre globalização, sem que ninguém explique, exatamente, o que isso significa.
Como em qualquer assunto em que entre a questão econômica, essa pergunta vai encontrar 11 respostas diferentes, se forem consultados 10 economistas. Eduardo Gianetti da Fonseca tem, pelo menos, uma explicação didática: o fenômeno globalização resultaria de três forças poderosas - a) a terceira onda, ou revolução tecnológica que permite busca, processamento, transmissão e difusão de informações em tempo real; b) a formação de áreas de livre comércio como o Mercosul, Nafta e União Européia; c) a crescente interligação e interdependência dos mercados físicos e financeiros em escala planetária.
Vou ao site do Le Monde Diplomatique, organizador e principal incentivador do movimento anti-Davos e encontro outra versão a começar quanto ao termo globalização. Os franceses preferem mundialização e atribuem os novos tempos à desaparição do único grande sistema que concorria com o capitalismo liberal em escala planetária, ou seja, o comunismo soviético. Aí, sim, fecha-se o ciclo, porque o fim do comunismo permite globalizar de fato o capitalismo, com todas as implicações decorrentes: aumento do fluxo de comércio, de informações e de expansão das empresas multinacionais para mercados antes fechados.
Então, podemos concluir que a globalização é, acima de tudo, um fenômeno financeiro. A redução da taxa de juros norte-americana é uma prova. O mundo inteiro fica esperando o que o Federal Reserve Board vai fazer e... cabeça de quem cair. A um simples toque de computador, bilhões de dólares, de repente, podem se evaporar no Brasil e reaparecer em Hong Kong. A Daimler Benz fundiu-se com a Chrysler e montou uma fábrica no Paraná que, mal inicia a produção já é fechada. A Whirlpool, norte-americana, comprou a Brastemp e a Consul, bate recordes de produção em sua fábrica de refrigeradores de São Bernardo, apura bons lucros mas, mesmo assim, alguém lá nos Estados Unidos decide fechá-la e demitir 1.050 funcionários. Por quê? A produção no Brasil está concorrendo com a da matriz norte-americana e isso gera mais prejuízos lá do que os lucros daqui. A velhinha americana, acionista da Whirlpool, quer receber seus dividendos, não importa como. Se as ações caem a vovó manda vender os seus papéis e compra as de outra empresa. O pé-de-meia geriátrico deixa no chinelo o dinheiro de Georges Soros, o famoso mega-investidor que bateu boca via circuito fechado com os militantes de Porto Alegre.
A Nike, por exemplo, já está em outro estágio de adiantamento como empresa global. Nada fabrica e fatura 11 bilhões de dólares por ano. Não é dona de nem sequer uma fábrica, não emprega nenhum operário, não tem nenhuma máquina. Toda sua produção é feita sob encomenda em fábricas que pertencem a outras empresas, a partir de modelos de tênis desenhados por especialistas nos Estados Unidos. Sua estratégia é calcada em conhecimento tecnológico e uso intensivo dos instrumentos de marketing. Atualmente, cerca de 80% dos tênis são feitos em fábricas de cinco países asiáticos onde a mão-de-obra é barata: Vietnã, Indonésia, China, Coréia do Sul e Taiwan. Com o McDonalds acontece quase a mesma coisa. As lanchonetes são montadas com capital de terceiros. A empresa só entra com a grife e seus padrões de qualidade. Os sanduíches podem variar, de acordo com os usos e costumes de cada país. Na Índia, onde a vaca é sagrada, o hambúrguer é de soja.
Diante dessa realidade, a globalização não beneficia a todos de maneira uniforme. Uns ganham muito, outros ganham menos, outros perdem. Na prática exige menores custos de produção e maior tecnologia. A mão-de-obra menos qualificada é descartada. O problema não é só individual. É um drama nacional dos países mais pobres, que perdem com a desvalorização das matérias-primas que exportam e o atraso tecnológico.
(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC