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Horta dá bons frutos em Pederneiras

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 7 min

A laborterapia ajuda os dependentes químicos. Empresas da cidade apóiam e comunidade desfruta da produção

Pederneiras - O programa de laborterapia (tratamento através do trabalho) do Grupo de Apoio a Alcoólatras e Narcóticos de Pederneiras (GAAN) está rendendo bons frutos à cidade: a produção de uma horta já enriquece as refeições de várias famílias nas proximidades do Núcleo Antônio Conti; e outras duas hortas estão sendo preparadas para o cultivo de mais hortaliças. Mas a manutenção e ampliação do projeto dependem exclusivamente de apoio, colaboração e parcerias.

As hortas estão sendo formadas em três terrenos cedidos pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). As sementes foram doadas pela Secretaria Estadual da Agricultura, através da Casa da Agricultura da cidade, que também oferece toda a assistência técnica, com acompanhamento direto de um engenheiro agrônomo.

A primeira horta foi criada há cerca de seis meses e as hortaliças ali produzidas são vendidas diretamente à comunidade vizinha, rendendo aproximadamente R$ 400 por mês, de acordo com o presidente do GAAN, Pedro Wilson Copedê. Toda a produção é vendida por um preço bem camarada. Um pé de alface, por exemplo, custa R$ 0,10. E a saída é tão boa que a gente não vence plantar. Às vezes o pessoal chega e nem tem.

Ele afirma que a segunda horta (Rua 15 de Novembro) também já está sendo formada e toda a produção deverá servir para o abastecimento da Santa Casa da cidade. Segundo Copedê, a Santa Casa já preparou uma lista com as hortaliças de que mais necessita e os recuperandos do GAAN já iniciaram a plantação dos legumes e verduras.

A terceira horta (Parque D. Pedro II) ainda está em fase de instalação. O terreno já foi limpo e arrumado, mas nada foi plantado ainda.

GAAN

O Grupo de Apoio a Alcoólatras e Narcóticos de Pederneiras é uma sociedade civil sem fins lucrativos. Foi criado há aproximadamente 1,5 ano, por um pequeno grupo de dependentes químicos que já estavam em processo de recuperação. Naquela época, Pederneiras só tinha as reuniões do AA - Alcoólicos Anônimos. A gente achava que algumas pessoas que estavam abandonadas na rua precisavam ter uma casa onde pudessem resgatar primeiro o físico, depois o moral, o amor próprio, para depois falarmos das outras etapas da recuperação, explica Copedê.

A partir desta idéia, eles passaram a buscar apoio municipal, estadual e da sociedade e conseguiram alugar uma cháraca onde hoje vivem oito pessoas em sistema de internato. Ao todo, o Grupo atende 14 dependentes químicos. São homens e mulheres, todos maiores de idade, vítimas do álcool, da droga e do abandono. Além da recuperação, nosso trabalho também visa à reintegração da pessoa à sociedade, à vida e ao trabalho.

O Grupo segue os moldes do tratamento que é feito no Lar Dom Bosco, em Pirajuí: Estamos copiando o trabalho que eles fazem lá, com 20 anos de experiência. Alguns dependentes nós ainda encaminhamos para lá. O nosso sonho é ir trocando experiência com eles até que possamos oferecer o tratamento todinho aqui.

Além das hortas, os internos contam com uma pequena oficina de marcenaria, onde podem confeccionar bancos, objetos de cozinha e brinquedos. Diariamente, eles participam de reuniões de evangelização (coordenadas pela Igreja Católica) e de recuperação (baseadas nos 12 passos do AA).

Quando o interno é arrimo de família, o Grupo assume o compromisso de apoiar e enviar cestas básicas. Isso dá tranqüilidade ao recuperando. Só que nós pedimos que a família participe do trabalho, para que a reintegração dele depois seja mais fácil.

Sustento

Segundo Copedê, o Grupo é sustentado por contribuições de diferentes pessoas e entidades. Além da Sabesp e da Casa da Agricultura, que colaboram diretamente com as hortas, a Prefeitura Municipal fornece cestas básicas e garante as viagens dos internos, quando necessário. A Paróquia São Sebastião paga o aluguel da chácara, no valor de R$ 150. A Paróquia Nossa Senhora Aparecida custeia a energia elétrica da chácara. Também temos alguns associados, que participam com doações: comerciantes, Lions Clube, Loja Maçônica. Isso gira em torno de R$ 350 por mês. Temos sempre entre R$ 250 e R$ 300 em doações anônimas, mais uns R$ 200 livre que tiramos da horta, descontando as despesas. Podemos afirmar que cada interno nos custa, em média, R$ 100 por mês, relata.

Questionado se os internos contribuem em dinheiro com o Grupo, Copedê afirma que ninguém compra uma recuperação: Eu, particularmente, não acredito numa recuperação paga, porque a pessoa não é vista como um recuperando, mas como um cliente. Aí, até para a gente impor uma disciplina e chamar a atenção dele fica difícil, porque ele estaria pagando para estar ali. Mas isso é relativo, porque nós não cobramos, mas o interno trabalha. Então ele acaba custeando seu tratamento e o apoio que damos às famílias.

Futuro

De acordo com Copedê, a intenção do GAAN é ampliar o atendimento para 25 a 30 pessoas até o final deste ano. Para isso, os associados estão batalhando por uma nova casa, já que a chácara usada hoje tem capacidade para apenas 14 leitos. E já estamos em contato com o prefeito para que ele nos consiga um terreno para uma sede própria. Paralelamente, estamos preparando toda a documentação necessária para encaminharmos a diferentes órgãos e entidades de apoio social no intuito de conseguirmos o material e dinheiro para as obras. Porque quando nos sentarmos para conversar com o prefeito, se ele perguntar como vamos construir a sede, queremos já ter uma resposta.

Serviço

Para ampliar seu trabalho, o GAAN depende de apoio da iniciativa privada e da sociedade. Interessados em colaborar podem fazer doações depositando qualquer quantia no Banco Bradesco, agência 043-4 (Pederneiras), conta n.º 26.474-1.

Resultados de um projeto

Aqui, trabalhando, a gente está se distraindo, não está pensando naquelas outras coisas erradas lá de fora. A afirmação do ex-interno do GAAN, Valdomiro Brito dos Santos, 47 anos, resume bem o objetivo da laborterapia. Estando engajado numa atividade, o ser humano sente-se importante, necessário, confiante. Isso lhe dá força para lutar contra carências e inseguranças, contribuindo irrefutavelmente com a recuperação da dependência química.

Valdomiro conta que começou a beber aos 8-9 anos de idade. Por causa da bebida, eu perdi minha família e nunca mais consegui de volta. Hoje, minha mulher e meu filho estão em Belo Horizonte. Entrar para o grupo foi o maior passo que eu dei na minha vida. Eu estava realmente necessitado. Faltava uma luz e eu achei. Valdomiro entrou para o GAAN no dia 13 de novembro de 1999. Mesmo não sendo mais interno, trabalha voluntariamente em uma das hortas. Ele não bebe há um ano e seis meses.

Eu estava morrendo. Chegou um dia em que eu não tinha força nem para levantar. Aí, pedi para minha mãe me levar para o hospital. Lá, perguntei o que eu deveria fazer para parar de beber, porque, sozinho, eu não ia conseguir. Eles mandaram eu procurar o GAAN. Antes disso, quiseram me internar num hospital de loucos. Eu não sou louco da cabeça. Eu era louco de pinga, conta o pedreiro Jorge Alves de Oliveira, 38 anos.

Ele diz que começou a beber aos 14 anos de idade e só parou porque chegou ao GAAN. Fiquei na chácara por dois meses e voltei para a casa da minha mãe. Até hoje eu vou à reunião todo dia. A gente tem que dar o depoimento, contar o que fazia de errado, quebrava coisas dentro de casa, queria matar os outros na rua, ia trabalhar e perdia a memória. Só não roubei estranhos. Porque da minha mãe peguei muito dinheiro para beber. Hoje, graças a Deus, já dei tudo a ela. E continuo participando do Grupo, porque se eu beber de novo, eu vou morrer, porque não tem mais solução. Jorge não bebe desde o dia 2 de agosto de 1999.

O processo de recuperação dos dependentes químicos está sendo muito bem visto por quem está do lado de fora das hortas. É o caso da dona de casa Durvalina Alves Gonçalves, 50 anos, moradora do Núcleo Antônio Conti. A melhor coisa que aconteceu foi fazer essa horta na cidade. Antes, isso aqui era só mato, tinha muito escorpião e servia de escoderijo para uma turminha que ficava fazendo bagunça. Agora está uma beleza. E de quebra, a gente vem comprar uma verdura colhida na hora, fresquinha, que a gente vê como está sendo produzida. Acho sensacional o que estão fazendo. Trabalhando, eles ocupam o tempo e não têm chance de sair por aí, o que ajuda muito na recuperação.

Sem contar que é baratinho. A gente paga R$ 0,10 no pé de alface e olha que beleza. Aqui a gente vê como a verdura está sendo produzida, completa a dona de casa Jaci Alves, 63 anos.

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