Pouco explorada, a produção de semente de girassol está sendo incentivada por seu baixo custo e alta rentabilidade
Jaú - Um dos principais quadros pintados por Van Gogh e também um dos mais caros do mundo foi fruto de uma inspiração provocada pela beleza inconteste de uma plantação de girassóis.
A planta que encantou o artista holandês no século 19, está despertando, dois séculos depois, o interesse de produtores agrícolas, da região de Bauru. O baixo custo de produção e o alto preço que se paga atualmente pelo óleo produzido pela planta, notadamente o azeite, está estimulando os pequenos agricultores a investirem na expansão da cultura de girassol.
Em um encontro realizado anteontem, na Associação dos Plantadores de Cana da Região de Jaú (Associcana), foram apresentados, aos produtores rurais, os resultados de pesquisas feitas pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e Embrapa sobre o plantio do girassol e sua viabilidade econômica. Na tentativa de estimular a expansão dessa cultura na região, a Associação convidou o professor do Departamento de Biotecnologia Vegetal da Ufscar, Sizuo Matsuoka, que há três anos vem estudando o assunto, para responder a algumas dúvidas dos interessados em investir no plantio de girassol.
Durante sua palestra, para cerca de cem pequenos produtores rurais da região de Jaú, Matsuoka falou de seus estudos a respeito da plantação de girassóis durante a reforma do canavial (período de descanso da terra entre um plantio de cana-de-açúcar e outro) ou mesmo de forma consorciada, ou seja, simultânea. O professor falou ainda sobre as pragas que podem atacar o girassol, sendo que uma das principais são os pássaros, que procuram comer as sementes que a planta produz. A saúva, lagarta, vaquinha e percevejos também foram lembradas por Matsuoka. Segundo ele, a proliferação de lagartas ganha impulso em épocas de pouca chuva. Embora receba o mesmo nome, a lagarta do girassol tem uma aparência diferente da lagarta do milho, por exemplo. Ela é mais peluda que a segunda, mas o poder de destruição, segundo o professor, é equivalente.
De acordo com o presidente da Associcana, Paulo Brandão, a cultura do girassol ainda é muito tímida na região. Ele espera que o encontro da última sexta-feira sirva para dar uma injeção de ânimo nos produtores. Das 14 cidades atendidas pela Associcana, Brandão lembrou de apenas três, onde há plantação, embora pequena, de girassol. Dentre elas, ele citou Jaú, cidade onde Maria Luíza de Arruda Botelho possui uma fazenda de 36 alqueires, dos quais um foi destinado ao plantio do girassol.
Este é o primeiro ano que estou plantando girassol. E o aumento da área plantada dependerá da colheita e dos resultados que vou ter, disse. Maria Luíza contou que foram usados vinte quilos de sementes, e o que mais lhe interessa é a produção de óleo, que, segundo ela, é bom para a saúde.
Maria Luíza contou que decidiu investir em girassol após ler uma reportagem em um suplemento agrícola e de saber que quase toda a produção usada pelas empresas brasileiras vem de fora. Caso obtenha sucesso em sua primeira tentativa, ela já planeja aumentar a área plantada para quatro alqueires.
São iniciativas como essa que o presidente Paulo Brandão espera ver repetidas em outras fazendas da região. Ele não esconde seu inconformismo com o fato do Brasil ter importado 80 mil toneladas de sementes de girassol, da Argentina, no ano passado. Com a quantidade e qualidade de terra que temos, isso é um tremendo absurdo, afirmou.
Planta valorizada
O girassol foi e continua sendo uma fonte inesgotável de inspiração para pintores, poetas, músicos, decoradores. Mas também é uma planta muito valorizada pela indústria brasileira, principalmente às que são ligadas à fabricação de óleo e azeite. O óleo de girassol é considerado um produto nobre por sua qualidade nutricional, que auxilia na redução do teor de colesterol sangüíneo. O girassol é também uma importante fonte de proteínas. Além disso, pode ser utilizada na alimentação de aves, porcos e no confinamento e semi-confinamento do gado, especialmente na temporada de seca, quando falta pastagem.
De acordo com informações obtidas no site da Embrapa, a Argentina é a maior produtora de sementes de girassol. Na safra 98/99 foram colhidas 6,3 milhões de toneladas de sementes. Quase duas vezes mais do que a Rússia, segunda colocada.
No Brasil, o maior produtor é o Estado de Goiás. Segundo dados da Conab, são mais de 34 mil hectares de área plantada, que resultam em mais de 58 mil toneladas de sementes, anualmente. O Estado que mais se aproxima dos líderes é o Mato Grosso do Sul com 16 mil hectares plantados e 28 mil toneladas colhidas, em números aproximados.
Falta de extratora impede expansão
Uma das maiores barreiras à expansão do cultivo da semente de girassol, em terras brasileiras, é a falta de indústrias extratoras, cuja finalidade principal é realizar, como o próprio nome já diz, a extração do óleo. Essa afirmação foi feita pelo professor Sizuo Matsuoka, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) durante o encontro com os pequenos produtores rurais de Jaú e região, anteontem, na Associcana.
No Estado de São Paulo existem apenas pequenas plantações, cuja produção segue dois caminhos quase idênticos: servir de alimento aos pássaros ou à criação de gado. Isso porque a indústria extratora praticamente inexiste, explicou Matsuoka. Hoje, infelizmente, a extração de óleo está nas mãos das multinacionais, que preferem comprar da Argentina a investir no Brasil, continuou.
O professor disse ainda que a última grande extratora que existia no País foi fechada por uma multinacional que trabalha com a comercialização de grãos, mas que em Goiás e Mato Grosso algumas pequenas empresas começam a surgir. Existe um mercado interno muito grande a ser explorado. Os produtores brasileiros não conseguem atender nem 5% da demanda que existe hoje no País, revelou Matsuoka.
Segundo o professor, a comercialização da semente de girassol é mais rentável do que o milho, outro produto de onde também se extrai o óleo.
O quilo da semente de girassol está cotado hoje em torno de R$ 0,30 a R$ 0,35, de acordo com Matsuoka. Por isso, nós estamos tentando incentivar a extração do azeite, que tem um preço e uma procura bem maior do que o óleo comum, destacou.
Por outro lado, o diretor de marketing da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), o engenheiro agrônomo Dilson Rodrigues, acredita que o plantio de girassol está crescendo por causa da demanda por silagem (alimentação para rebanho). Nós temos divulgado a técnica de silagem de girassol para dar ao pecuarista mais uma opção para se conseguir um alimento de qualidade, por um custo mais baixo.
No entanto, Rodrigues entende também que a produção de azeite pode ser um excelente negócio. Em alguns casos, consegue-se vender um litro de azeite por R$ 15 ou R$ 20, nos grandes centros, onde a procura é maior, destacou. Rodrigues faz questão de lembrar o produtor para que o mesmo faça uma pesquisa cuidadosa antes de começar a plantar. Não adianta nada investir num produto que não terá comprador.
Além de valorizado comercialmente, o girassol tem outras vantagens. Segundo o engenheiro agrônomo do Cati, a planta aproveita muito bem a adubação que sobrou da cultura anterior, o que significa economia na hora de comprar de adubos. Rodrigues vai um pouco além; em determinados solos é possível produzir girassol sem adubação.