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Apenas 26% trabalham no que querem

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

A infância talvez seja o único período da vida no qual se sabe com certeza (mesmo que esta não seja fundamentada) qual profissão se vai seguir. Na adolescência, geralmente a pessoa fica confusa, sem saber qual carreira seguir, e essa incerteza se agrava às portas do vestibular, por volta dos 18 anos. Após a faculdade, os dilemas são outros. O curso está feito, mas e o mercado de trabalho? Será que a profissão escolhida era a mais viável? Será que vou ser bem sucedido? São algumas das perguntas que surgem na cabeça dos recém-formados. É nessa hora que muitas pessoas optam pelo emprego que aparece pela frente e, em alguns casos, deixam de lado a formação acadêmica e os sonhos.

Quem confirma essa realidade é um estudo realizado pela MCI Marketing e o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), que indicou que apenas 26% de mil entrevistados, estão satisfeitos com a profissão que exercem. Dos demais, 18% afirmaram que desempenham a função para a qual se formaram, mas não estão na profissão dos sonhos, e 28% declararam estar simplesmente trabalhando na área que apareceu em suas vidas, independentemente de vontade, vocação ou preparo.

Mas 26% de satisfação é um valor médio. De acordo com o estudo, exercer a profissão sonhada está ligado ao grau de instrução da pessoa. Entre os entrevistados que têm curso superior, o índice de satisfação sobe para 47%; entre os que possuem apenas o primeiro grau, cai para 19%. A conclusão é que, conforme aumenta o grau de instrução, há mais chance de preparo e, conseqüentemente, mais chances de conseguir o emprego dos sonhos.

Ainda entre os formados, 17% afirmaram que estão trabalhando na profissão que apareceu primeiro em suas vidas. Entre os que têm até o segundo grau, os índices sobem para 32% (satisfação) e 28% (emprego que apareceu pela frente). Um dado interessante sobre o estudo é que 29% dos entrevistados afirmaram não saber se estão satisfeitos ou não com a profissão. Segundo os responsáveis pelo estudo, isso é um sinal de que as pessoas estão perdidas quanto à profissão.

Acaso e escolha errada

Peguei o primeiro emprego que apareceu porque precisava trabalhar, conta Luís Carlos Santos, pintor há 13 anos. Sem condições para estudar além do primeiro grau, ele se diz frustrado por não ter estudado e feito a faculdade que queria. Acho que teria sido um bom médico, lamenta.

Carlos Roberto Canaver, comerciário há 17 anos, também está entre os que atuam numa profissão que apareceu pela frente. Ele ainda não tinha uma escolha de carreira aos 16 anos, quando começou a trabalhar como ajudante de ferramentaria. Quando surgiu a oportunidade de se tornar vendedor, ele trocou de cargo e nunca mais deixou o comércio, onde também já foi gerente e sub-gerente. Segundo ele, a razão de ter permanecido tanto tempo na mesma profissão está ligada à dificuldade do mercado, que é bastante fechado. A gente não pode largar o que já tem e tentar alguma coisa às escuras, diz. É preciso ter uma segurança, completa Canaver, que afirma estar feliz na profissão que lhe apareceu. Aprendi muita coisa lidando com o público.

Apesar de também se declarar satisfeita com o trabalho, a comerciante Eliana Rodrigues Rojais diz que não fez a escolha certa quando era mais jovem e decidiu estudar Pedagogia. Depois de formada, ela percebeu que não queria seguir a carreira de pedagoga e acabou no comércio. Acho que a gente é muito nova aos 18 anos para fazer uma escolha tão importante para a vida, como é uma profissão. Só quando termina a faculdade é que você percebe que talvez não vá ganhar dinheiro ou conseguir se realizar, comenta. Hoje, Eliana, proprietária da loja de objetos esotéricos, Sol e Lua Mística, se diz realizada porque trabalha com o tipo de produto que tem a ver com a sua personalidade. Mesmo assim, lamenta não ter feito a escolha certa na juventude. Gostaria de ter estudado psicologia, afirma.

Satisfação

A secretária Ana Luiza B. Cerpa faz parte do grupo das pessoas contentes com a profissão, apesar de não ter curso superior. Há 12 anos na profissão, ela afirma que não quer trocar de atividade tão cedo porque se sente feliz com o que faz. Ainda tenho planos de fazer uma faculdade, mas vai ser algo relacionado ao que faço agora, explica. O empresário Luís Eduardo Castanho também é um dos felizes com a sua profissão. Assim que terminou a faculdade, ele deixou de ser estagiário em uma empresa do ramo de informática em São Paulo para se tornar sócio de um outro colega que já trabalhava na empresa. Montamos nosso próprio negócio e tivemos sorte de conseguir sobreviver nesse mercado supercompetitivo, conta. A satisfação com a profissão não está diretamente relacionada à estabilidade financeira, mas sim ao prazer de fazer o que gosta. Não estou rico, é claro, mas trabalho com gosto, isso é muito bom, diz, O lucro vem com o tempo.

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