Geral

Sentimentos diferentes

(*) N. Serra
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Jornais paulistanos andaram divulgando, na semana passada, o curioso assassinato cometido por um jovem contra sua noiva, com a qual sustentava romântico e profundo noivado havia mais de cinco anos. A moça sofrera um acidente quando viajava num coletivo, do qual caiu e teve o rosto totalmente deformado pelos paralelepípedos sobre os quais foi projetada. Não obstante as cirurgias a que foi submetida, sua face ficou quase irreconhecível. Evidentemente, já não era, então, a noiva com a qual o moço sonhara casar-se um dia e com ela viver perenemente. O que fez ele, então? Quando ela deixou o hospital, suportou alguns dias e, pouco depois, tirou-lhe a vida no calor de discussão que com ela travou. O motivo era mais que óbvio. Não mais gostava dela e não a desposaria jamais, naquelas condições. Não mais pretenderia permanecer ao seu lado até que a morte os separasse depois de casados. Muitos que tomaram conhecimento da ocorrência, de suas circunstâncias e de seus motivos, saíram por aí perguntando: afinal, o casal se amava de verdade ou se amaram de mentira durante aqueles longos anos de aproximação ou convivência? Parece que, pelo visto, não chegaram a se amar. Talvez apenas tivessem se gostado. E gostar não é amar (sabiam?), porquanto deixar-se levar pelas aparências das pessoas não significa, cabalmente, que um e outro tenham realmente um amor autêntico, uma vez que o ser humano pode gostar de outro somente porque é bonito, é risonho, é simpático e, ainda, porque é educado, é culto, é sério, é rico e, assim, condicionado para satisfazer seus desejos. Contudo, amar exige não apenas isso. Gostar é uma coisa e amar é outra. O amor vai bem mais longe, razão pela qual - dizem os psicólogos - os seres de ambos os sexos precisariam se conhecer não apenas superficialmente. Não poderiam encantar-se, à primeira vista, com a fisionomia daqueles com os quais estariam se empolgando. Não fora assim será que o companheiro, envelhecendo ou perdendo um o aspecto da juventude ou se tornando inválido, atirado irreversivelmente num leito de enfermo, poderia deixar de ser amado pelo(a) parceiro(a), o qual, então, dispor-se-ia a permanecer indefinidamente ao seu lado apenas por obrigação ou dever matrimonial, humanitário, porque estaria, então, sem os impulsos sentimentais dos primeiros tempos? É o que se está perguntando por inspiração do drama ocorrido na rua paulistana, assim como outros, em lugares diversos, em função, de que as figuras humanas precisam aprender a amar realmente e não apenas gostar de seus semelhantes. É possível que se a humanidade atingisse esse grau de maturidade e aperfeiçoamento, certamente não teria tantos crimes com essas características e, por outro lado, não aconteceriam tantas separações, desquites e divórcios. É a nossa opinião.

(*) N. Serra, jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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