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E agora, Sharon?

(*) Márcio C. Coimbra
| Tempo de leitura: 3 min

Os esforços do primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, não foram suficientes para conter a avalanche de votos em seu opositor na eleição do dia 6 de fevereiro. Ariel Sharon, hoje principal líder do Likud, foi eleito com 62,3% dos votos dos israelenses, contra somente 37,6% dados aos trabalhistas. A diferença de mais de 24 pontos entre os dois mostra que os israelenses não estavam conformados como política do primeiro-ministro Barak, que pendia entre setores mais conservadores, que não desejam negociar com os palestinos, e os setores mais moderados. Estas eleições também trouxeram um fato inusitado: apenas 59% das pessoas aptas a votar compareceram às urnas, o que se traduziu na menor taxa de participação em eleições em Israel.

Ariel Sharon terá uma grande batalha pela frente, pois deve tentar unir o Parlamento israelense (Knesset), composto por facções que vão desde o Partido Trabalhista de Barak e Shimon Peres, até setores mais conservadores, simbolizados nas figuras dos partidos nacionalistas e religiosos. Logo, Sharon enfrentará resistências internas e externas às suas políticas. Deverá ser muito hábil para lidar com posições tão diversas advindas de grupos das mais diferentes tendências.

Contudo, ao contrário do que se pensa, é bem possível que Sharon seja bem mais moderado do que se imagina. Como exemplo, cito a diminuição do bloqueio na Faixa de Gaza, a intenção de suspensão das sanções econômicas contra os territórios palestinos, a busca por setores mais moderados do Parlamento israelense na composição de seu governo e os pedidos da comunidade internacional para que não cessem as conversações de paz, como fizeram o presidente do Parlamento Europeu, lideranças da Noruega, Grã-Bretanha, Jordânia, Síria e os presidentes Hosni Mubarak do Egito, George W. Bush dos EUA e Yasser Arafat da Autoridade Palestina.

Sharon, hoje com 72 anos, é uma figura conhecida da política israelense. Obteve notoriedade quando liderou, como ministro da Defesa de Israel, a invasão do Líbano, em 1982. Quando, no mesmo ano, foram destruídos os acampamentos palestinos de Chatila e Sabra, uma comissão reconheceu a responsabilidade indireta de Sharon nos casos. Como resultado destes acontecimentos, ele teve que deixar o cargo de ministro. Entretanto, é curioso observar que Sharon é considerado o causador da mais recente Intifada (revolta popular palestina) quando visitou o Monte do Templo, em setembro do último ano. Este é um lugar sagrado tanto para judeus quanto para palestinos, que o chamam de al-Haram al-Sharif. A visita do líder do Likud a esse local sagrado foi considerada uma provocação. O resultado de todo este episódio foi a desaceleração das negociações de paz e teve como principal conseqüência o desgaste do governo Barak.

A paz, segundo assegura o novo primeiro-ministro de Israel, depende tanto de judeus quanto dos palestinos. Ele alega que está aberto às negociações, entretanto, só se reunirá com os dirigentes palestinos quando os principais conflitos cessarem. Além disto, já disse que considera Jerusalém a capital una e indivisível dos judeus, o que contraria a principal reivindicação palestina que considera a parte oriental da cidade como a capital de seu futuro Estado. Sharon diz que não negociará enquanto persistirem os conflitos e atentados. Entretanto, vale lembrar que a mais recente Intifada já dura mais de quatro meses. Além disto, dois dias após sua vitória nas eleições, um carro-bomba explodiu em Jerusalém onde residem os judeus ultra-ortodoxos. O atentado foi assumido por um grupo intitulado Forças da Resistência Popular Palestina em resposta à arrogância de Sharon. Tudo dependerá dos próximos passos do novo primeiro-ministro de Israel. Ele terá duas tarefas árduas: vencer as resistências parlamentares internas e iniciar uma negociação de paz que possa diminuir a intensidade do terror que se abate no Oriente Médio.

(*) Márcio Chalegre Coimbra é sócio do escritório Campos e Saldanha Advogados Associados (www.camposesaldanha.com.br)

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