Desnecessário seria que os órgãos oficiais viessem a público mostrar, a título de informação ou de fonte de estudos, as dificuldades econômico-financeiras que caracterizam a vida de milhões de brasileiros, pois seria chover no molhado revelar que 42 por cento dos nossos trabalhadores ganham atualmente apenas um salário mínimo mensal e que houve um agravamento da situação nos últimos anos, na medida em que o número de operários aumentou e o quadro de rendimentos permaneceu praticamente o mesmo, na base de 130 ou 151 reais. Todos estão sabendo disso, pois sentem na carne, vale dizer no estômago, todas as implicações da grande problemática, no meio da qual vêm a desnutrição, a debilidade física e mental, o favelamento desenfreado e outras anomalias que acabaram e acabarão se traduzindo no esfacelamento de lares e famílias e em penosas dissensões sociais. Somente o ignoram ou fingem ignorar as autoridades constituídas, notadamente parlamentares federais, que tabelam por baixo o mínimo, sufocando os anseios da maioria da população, enquanto admitem que outras faixas, inclusive as suas, muito bem privilegiadas, são deixadas com plena liberdade para alçar vôos, remunerando-se como entendem ou desejam, aí pela casa dos oito milhões mensais, além dos extras...
Sabe-se, por exemplo, que o principal órgão especializado na coleta de dados, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, foi criado para levantar índices econômicos e sociais destinados a estudos da conjuntura nacional e há mais de 60 anos que o faz dedicadamente. Seus agentes, o jornalista foi um deles, aqui na terrinha - quanta saudade,heim, Matilde, Mário, José Vicente e outros bons ibegeanos - saem às ruas e avenidas, coletam dados em diversos setores, sua gráfica imprime anuários e folhetos periódicos e os encaminha aos Ministérios governamentais, mostrando a realidade inteiramente pesquisada. E, agora, estão saindo também pesquisadores da Confederação Nacional da Indústria, achando que a economia e o emprego melhoraram recentemente. E daí...? Daí, pergunta o povo, que dá as informações e não tem as devidas respostas dos órgãos oficiais simbolizadas pelas providências necessárias, haja vista que, embora reconhecida por todos, a má distribuição de renda vai sendo indefinidamente mantida pelos poderes públicos, que nada têm feito objetivamente no sentido de obstaculizar a injustiça e o desequilíbrio do setor.
Reconhece o brasileiro sua indigência e, de cambulhada, a incapacidade de seus governantes para concretizarem, em tempo menos remoto, suas esperanças de libertação do penoso destino que o persegue. Por isso, resignadamente e numa manifestação de incontível orgulho, gostaria que ele não fosse, ao menos, o povo mais andrajoso deste imenso mundo de Deus. E, pensando nisso, deve estar perguntando: espelho, espelho meu, diga, com sinceridade, se não há por aí país mais pobre que o meu! É a nossa opinião.
(*) N. Serra, jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.