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Após 30 anos, associações de moradores tentam se firmar em Bauru

Andréia Alevato
| Tempo de leitura: 3 min

Elas surgiram, timidamente, nos anos 70. Hoje, 30 anos depois, as associações de moradores ainda tentam se firmar em Bauru. Elas vivem altos e baixos. Se por um lado foram legitimadas e reconhecidas pelo Poder Público na década de 80, por outro, não são suficientemente incentivadas pelo mesmo Poder Público, para se tornar independentes.

As associações de moradores surgiram, no Brasil, nos anos 60, com o crescimento dos grandes centros urbanos, que enfrentaram problemas de infra-estrutura na periferia das cidades. Para tentar suprir essa necessidade, os movimentos de organização popular começaram a aparecer. A situação se estendeu para as cidades de médio porte. Em Bauru, as primeiras organizações surgiram na década de 70, na Vila Santa Luzia e Vila Ipiranga.

Hoje, 30 anos depois, as associações de moradores de Bauru ainda tentam se firmar e mostrar por que surgiram. A cidade conta com a representação de 82 associações de bairros, ou seja, nem todos os moradores são representados por uma entidade, já que a cidade tem cerca 393 bairros.

Deste total, poucas são realmente ativas e buscam soluções e melhorias para o próprio bairro. Foi no início dos anos 80, que houve uma explosão na formação de associações de moradores. Com a criação da Secretaria de Projetos Comunitários (Seprocom), as associações foram legitimadas pelo Poder Público Municipal.

E essa explosão teve dois efeitos: o positivo e o negativo. Segundo o professor doutor em Psicologia Social do Departamento de Psicologia da Unesp de Bauru, Celso Zonta, o efeito positivo foi o de possibilitar e incentivar a criação de agrupamentos sociais para discutir os seus problemas locais junto à Prefeitura. O negativo foi de criar uma relação dependente entre associação de moradores e Poder Público.

"O movimento social precisa ser totalmente independente. Foi criado um vício de que esses movimentos de bairros não tinham base legítima nos seus bairros. Esse vício se perdura até hoje. Poucas associações têm ramificações profundas para sua base social. E, por conta disso, fica uma relação institucionalizada entre o Poder Municipal e o agrupamento de lideranças de bairros. Então, se o poder municipal diz não, a liderança tem poucos instrumentos de pressão para forçar o contrário, que é o que vem acontecendo", afirmou o professor.

O que diferencia as associações de moradores de hoje e de 30 anos atrás? Nada. Apenas o fato de hoje elas serem em maior número e terem mais liberdade e mais vozes para reivindicar. Mas isso não significa que as associações de moradores são mais ou menos atuantes e reivindicativas do que há 30 anos. Os casos são poucos, mas é possível encontrar associações independentes do Poder Municipal, que conseguem suas reivindicações mesmo quando a Prefeitura diz não. Por outro lado, a maioria das organizações de bairros são totalmente submissa ao Poder Público.

"Para inverter esse quadro e tornar todas as associações de moradores independentes, o Poder Público Municipal precisa postar na autonomia das organizações sociais", completou Zonta.

Trampolins políticos

É grande o número de candidatos a vereadores que fazem ou fizeram parte de associações de moradores. Poucos são eleitos.

Muitas pessoas tentam usar a associação de moradores como trampolim para conseguir chegar ao Legislativo ou alcançar qualquer outro cargo político. Teoricamente, ter um representante do bairro na Câmara Municipal seria bom. Será? Essa pergunta é repetida várias vezes em época de eleições. E muitas pessoas não vêem com bons olhos um líder comunitário que pleiteia uma vaga no Legislativo.

Porém, existem aquelas pessoas que realmente acreditam que só poderão ajudar, não um único bairro, mas vários, se engressarem na carreira política. "Mas não há problema algum uma pessoa que se destaca numa liderança se lançar candidato a vereador ou qualquer outro cargo político. Isso porque a pessoa pode ter adquirido um grau de consciência que extrapola essas reivindicações de caráter de consumo de um único bairro. Então, essa pessoa passa a questionar não só o poder local das reivindicações de consumo, mas também a característica e o modo que o Poder Público opera. É legítimo que essa pessoa se candidate para lutar por um projeto de sociedade", concluiu Celso Zonta.

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