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Modernidade faz do lazer uma obrigação

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Agendar atividades para o final de semana de folga está cada vez mais comum; "hobbies" são assumidos como compromisso

Ir ao cinema, fazer um churrasco com a turma ou jogar uma "pelada" com os amigos já não tem mais o mesmo significado de antigamente. Na sociedade moderna e capitalista, até mesmo os momentos de folga têm que ser produtivos. Perder a sessão ou atrasar-se para a partida de futebol pode ser tão constrangedor quanto cometer um erro ou faltar a um compromisso de trabalho. Hoje em dia, não fazer nada é inadmissível, mesmo aos domingos. Tudo é programado, agendado e rigorosamente cumprido.

"Já cheguei ao ponto de, numa final de campeonato, colocar toda a bagagem no carro e ir com a família inteira para o clube jogar. Só depois de terminado o jogo é que seguimos viagem", conta o bancário Valdir Soares Tech, 41 anos.

Tech faz parte de um grande grupo que se reúne às quartas-feiras e aos finais de semana no Clube de Campo da Luso para jogar futebol. Periodicamente, eles se dividem em times e fazem um campeonato. "Eu não tenho obrigação de ir, mas sou o goleiro, não tenho um substituto e se eu não for, vou prejudicar os companheiros", conta.

Tech afirma sentir-se incomodado com a obrigação. "É uma brincadeira, mas vira disputa e acaba estressando. Por outro lado, o bom do jogo é o estímulo que se tem de vencer. Aí você faz um campeonato e tem que ir. Tem hora que é desgastante isso."

"Também já deixei de ir à praia, de passar o dia no rancho, à beira do rio, por causa do campeonato", conta o bancário José Lúcio Lenharo, 38 anos, que também freqüenta o clube. "É uma rotina, mas uma rotina agradável... Para que sair dela? Você está praticando esportes e, se deixa de ir num dia, da próxima vez está morto, não agüenta. E a gente não vê a hora de chegar o dia para bater uma bolinha e bater papo com a turma."

Questionados sobre a participação das famílias, eles garantem que esposa e filhos estão sempre acompanhando. "Minha esposa às vezes reclama, diz que eu poderia passar mais tempo em casa, sair com eles para outros lugares, mas a gente dá um jeitinho e vai jogar bola", conta Lenharo. Já Tech diz que a família adora, participa e incentiva. "É até um motivo a mais para estar com a família reunida no clube. Se é uma obrigatoriedade, também é de estar com a família", defende.

Planejamento

Adalberto Gonçalves Mendes, 41 anos, um dos organizadores dos jogos, explicou ao JC que, ao definir o calendário dos campeonatos, eles já consideram os feriados: "Geralmente, nós não marcamos rodadas para feriados prolongados, Dia das Mães, dos Pais, que é para deixar o pessoal livre para poder viajar". Segundo ele, cerca de 500 pessoas participam jogando. "Fora os familiares", ressalta.

Questionado sobre a função de relaxamento dos dias de folga, Betão, como é chamado, lembra que a cabeça descansa. "O corpo é que não... Na segunda-feira, estamos todos quebrados. Às vezes, a gente toma um pouco a mais, fica com aquela ressaca, mas a cabeça está legal, a gente desabafa, descarrega o nervoso, grita. O excesso é que é ruim, mas aí a gente dá um tempinho, pula um final de semana, viaja no feriado e melhora", conclui.

Por dentro

"Quero ficar por dentro, conhecer todos os lançamentos", comenta a comerciante Ana (nome fictício), 28 anos, freqüentadora assídua das salas de cinema de Bauru. Ela garante que vai a, pelo menos, uma sessão aos finais de semana. "Às vezes, nem sei o que está passando, mas vou assim mesmo. Já acostumei e, se não for, sinto um grande vazio, fico até culpada", conta.

Ela afirma que nem sempre tem companhia para a atividade. "E meu namorado se recusa ver os infantis. Então, compro a minha pipoquinha, umas balas, um refrigerante, e vou sozinha mesmo. E me divirto muito."

Além do cinema, Ana é presença certa na academia às segundas, terças e quintas à noite. "Faço as aulas e alguns aparelhos. Só assim posso comer meus doces sem peso na consciência", brinca.

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