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Lobby pode definir bispo de Bauru

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 6 min

Nunciatura Apostólica, sediada em Brasília, cumpre a 1.ª fase do processo de escolha do futuro bispo de Bauru

Quem será o novo bispo da Diocese de Bauru? Essa é a pergunta que mais se faz hoje entre os católicos da cidade. O processo de escolha é lento, complexo, meticuloso e corre sob o segredo pontifício. Desde que dom Aloysio José Leal Penna foi nomeado para a Arquidiocese de Botucatu, em agosto do ano passado, a Nunciatura Apostólica - que tem estatus de embaixada do Vaticano no Brasil -, sediada em Brasília, iniciou o processo que apontará o novo bispo de Bauru.

Embora a palavra lobby não seja aceita pela Nunciatura para definir uma situação clara, existe um nome de consenso entre religiosos, religiosas, leigos e leigas da cidade para assumir a Diocese. A pressão, feita de maneira discreta e silenciosa, pode até não surtir efeito, mas aponta uma tendência da comunidade católica de Bauru.

O novo bispo da cidade, de acordo com o perfil definido pelas lideranças católicas, deve ser relativamente jovem (entre 40 e 45 anos de idade), o suficiente para comandar uma Diocese que abriga, na sua sede, uma população de 15 mil universitários e mais 5 mil secundaristas. O candidato deve estar envolvido na Pastoral da Juventude.

As características apontam para um nome: monsenhor Enedir Gonçalves Moreira, 44 anos. Logo após a nomeação de dom Aloysio, ele foi eleito, com o consentimento do Conselho de Presbíteros - que reúne todos os padres da Diocese -, administrador diocesano. Para assumir o cargo - que, na prática, preenche as atividades de um bispo -, Moreira foi elevado a monsehor.

Tradicionalmente, o comando da Igreja Católica brasileira segue à risca as regras informais do Vaticano e, normalmente, não indica um religioso da cidade para comandar a Diocese. Mas toda regra tem sua exceção. O secretário da Nunciatura Apostólica no Brasil, padre Júlio Sembeni, diz, com discrição, que o Vaticano pode sim optar por uma solução caseira, embora ele não tenha se referido especificamente sobre a situação de Bauru.

Para monsenhor Enedir assumir a Diocese, ele terá que ser elevado a bispo. Isso não é nenhuma novidade. A pergunta é: se ele for elevado a bispo, o que está muito próximo de acontecer, vai ficar em Bauru? É aí que começa o lobby de bastidor, desenvolvido com discrição a favor de monsenhor Enedir, já que a Igreja Católica não admite, oficialmente, interferências nas suas decisões administrativas.

Dom Aloysio nunca escondeu de seus amigos fiéis mais próximos que, ao deixar a Diocese de Paulo Afonso, no sertão da Bahia, conseguiu indicar seu sucessor. Coincidência ou não, monsenhor Enedir chegou a Bauru justamente no ano em que dom Aloysio assumiu o comando da Diocese, em 1990. O ex-bispo de Bauru confessou, a interlocutores mais próximos, que "trabalhou" Enedir para dar seqüência a seu trabalho de pastor.

E, segundo fontes do meio religioso, dom Aloysio também "trabalha" para elevar a bispo o atual administrador diocesano. Se possível, de Bauru. Outro ponto que deverá pesar a favor de Enedir é o fato dele ser pároco da Paróquia Universitária, cuja criação está relacionada diretamente à Universidade do Sagrado Coração (USC), mantida pelo Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus (IASCJ).

O instituto, que tem forte presença nos corredores da Santa Sé, em Roma, e é o responsável pela direção de uma universidade reconhecida internacionalmente, joga no time de monsenhor Enedir. É ele, aliás, que está à frente da construção do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, que, futuramente, vai abrigar a sede da Próquia Universitária.

Primeira fase

Há grandes chances de o nome do novo bispo de Bauru só ser anunciado no segundo semestre deste ano. Na média, a nomeação feita pelo Vaticano demora pelo menos um ano. Há dioceses no Brasil que estão sem bispo há mais de dois anos. Na semana passada, o Papa João Paulo II nomeou David Dias Pimentel como o novo bispo de São João da Boa Vista (SP).

A Diocese era uma das quatro que estava sem comando oficial. As outras três são: Cajazeiras (PE), Guiratinga (MT) e Bauru. O processo de escolha do novo bispo de Bauru encontra-se em sua fase inicial, segundo o secretário da Nunciatura Apostólica. Há informações extra-oficiais que o núncio apostólico, Alfio Rapisarda, já teria uma lista tríplice em suas mãos.

O processo inicial é disparado através de uma consulta sigilosa, que envolve de 30 a 40 pessoas, entre leigos, leigas, religiosos, religiosas e até mesmo bispos da região. A correspondência da Nunciatura que traz o questionário é enviada via Correios, retornando da mesma forma. É a partir daí que forma-se a primeira lista de candidatos (veja quadro explicativo).

Segundo padre Júlio Sembeni, essa fase está em fase de conclusão, faltando a manifestação de poucos consultados. Na seqüência, começa o processo de eliminação, até se chegar a lista tríplice. Os três nomes que forem indicados terão suas vidas religiosas investigadas detalhadamente. O núncio faz a indicação de acordo com o perfil da Diocese.

O processo segue para Roma com o dossiê dos três indicados, provavelmente já com uma indicação informal. No Vaticano, a decisão final da escolha cabe ao prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos, cardeal João Batista Ré. O Papa João Paulo II ratifica a escolha e encerra o processo.

Veja como é feita a nomeação de um bispo

* Indicação aleatória de nomes

* A Nunciatura Apostólica (representanção diplomática do Vaticano * o Brasil), sediada em Brasília, envia questionário a bispos, padres, religiosas, leigos e leigas da diocese, fazendo uma consulta dos nomes indicados aleatoriamente. São cerca de 30 a 40 pessoas consultadas sob sigilo total (segredo pontifício)

* O perfil da diocese começa a ser levantado. O objetivo é nomear um bispo, ou elevar um religioso a essa instância, adequado à realidade da diocese

* O questionário retorna à Nunciatura, em Brasília. É formada a primeira lista de nomes

* Inicia-se uma investigação detalhada da vida religiosa de cada um dos indicados

* Da lista inicial, os nomes dos candidatos vão sendo eliminados, até configurar-se uma lista tríplice

* A lista tríplice é encaminhada ao Vaticano pelo núncio apostólico no Brasil, Alfio Rapisarda, com seus respectivos dossiês

* A avaliação em Roma é feita pelo prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos, que atualmente é ocupada pelo cardeal italiano João Batista Ré

* cardeal Ré estuda a lista tríplice e os respectivos dossiês de cada indicação. Ele decide por um nome

* escolhido é consultado e informado oficialmente da decisão da Santa Sé

* Papa João Paulo II assina a nomeação (carta episcopal) e anuncia a decisão nas tradicionais audiências públicas das quartas-feiras, quando fala da janela do Vaticano para o público, na praça São Pedro

* escolhido é quem marca a data para ser empossado

Nunciatura diz que escolha não se compara a plebiscito

A escolha de um padre ou bispo para comandar uma diocese não pode ser comparada a um plebiscito ou eleição. A afirmação é do secretário da Nunciatura Apostólica no Brasil, padre Júlio Sembeni. Segundo ele, a nomeação não tem indicação de privilegiados. "Talvez poderá ser um religioso de Bauru. Tudo isso faz parte do mistério. Não dá para saber quem exatamente poderá ser".

O secretário explica que a nomeação se dá em consonância com o baixo clero. "As consultas são feitas para escutar, para sentir, para ver o parecer direto das pessoas que moram na Diocese. Elas têm uma palavra adequada para descrever e iluminar a escolha que será feita pelo Papa", diz.

Padre Júlio deixou claro que nem sempre o padre ou bispo que recebeu maior número de indicações poderá ser o escolhido. "A forma de escolha não se compara a uma eleição democrática, como que aquele que tiver mais votos, ganha. Isso não é um plebiscito, uma votação pública. O rito da Igreja Católica para nomear um bispo é diferente".

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