Testemunha de um dos mais tradicionais desfiles carnavalescos da região, a avenida ficará em silêncio desta vez
Jaú - Sem auxílio financeiro da Prefeitura e completamente desarticuladas, as escolas de samba e blocos carnavalescos de Jaú serão apenas meros coadjuvantes durante as quatro noites de folia que geralmente tomam conta de boa parte da comunidade local. As ruas da cidade, testemunhas de um dos mais tradicionais desfiles carnavalescos da região, guardarão silêncio desta vez. Sem recursos próprios para bancar os gastos com os desfiles deste ano, e sem a costumeira subvenção concedida pelo poder público, as escolas quebram uma tradição que fora sustentada - algumas vezes às duras penas - durante muitos anos e que agora chega a um ponto onde se faz necessária uma séria e profunda revisão, caso queira permanecer como tal.
Conversando com pessoas ligadas ao poder público e às escolas de samba chega-se à conclusão de que o conformismo tomou conta dos carnavalescos jauenses, os quais passaram a depender, durante os últimos anos, quase que exclusivamente de recursos públicos para manter suas atividades.
Com a chegada da Lei de Responsabilidade Fiscal, prefeitos de todo o Brasil cortaram todas as despesas possíveis para não correrem o risco de serem processados por crimes contra a administração pública, cuja pena pode chegar a quatro anos de prisão. No caso específico de Jaú, o Orçamento do município para este ano, elaborado e aprovado no fim da administração de Paulo Sérgio de Almeida Leite (PSDB), não contemplou as escolas de samba com as subvenções que eram de praxe. Acredita-se que a razão principal para tal procedimento tenha tudo a ver com a busca pelo correto enquadramento às normas presentes na lei que acabava de surgir.
"Em novembro, o pessoal das escolas de samba procurou o João (Sanzovo (PDT), atual prefeito) para discutir a respeito dos desfiles deste ano. Porém, na mesma época, a Câmara Municipal discutia o Orçamento para 2001. E nessa discussão não houve destinação de verba específica para o Carnaval. Desde então, os representantes das escolas e o prefeito eleito começaram a pensar num Carnaval diferente", relatou o assessor de imprensa da Prefeitura, José Cláudio de Paula.
Nem mesmo a presença do vereador Adilson José Carvalho, presidente da escola de samba Arco-Íris, foi suficiente para mudar essa situação, que se mostrava preocupante desde aquele momento. Segundo a assessoria de imprensa, a Lei Orgânica de Jaú não permite aos vereadores a apresentação de emendas ao Orçamento. Apenas o prefeito teria poderes para acrescentar despesas ao erário público. Sendo assim, as escolas ficaram sem dotação orçamentária para colocar seus carros alegóricos e passistas para desfilarem pelas ruas da cidade.
"Em outras ocasiões, houve problemas semelhantes, mas as escolas acabavam se virando e desfilavam. Desgraçadamente, de um tempo para cá, criou-se uma cultura paternalista. Se a Prefeitura não subvenciona, não tem desfile", indigna-se o assessor José Cláudio. Porém, essa realidade poderá mudar, em breve. Uma parceria entre a Secretaria de Cultura e Turismo e as escolas de samba poderá resultar na criação de uma Liga, cuja finalidade principal seria arrecadar fundos para que episódios como o deste ano não voltem a se repetir.
"Não tem outro caminho", acredita Marcial Augusto Lopes, presidente da escola Afro-Amukenguê. "Precisamos pegar firme este ano e formar a Liga. Só assim teremos mais estrutura e poder de reivindicação." É bem provável que a Liga seja realmente criada este ano. Segundo Lopes, a secretária de Cultura e Turismo, Lucy Rossi Monari, já avisou aos representantes das escolas de samba de Jaú que, se a Liga não for criada, não haverá ajuda financeira para o próximo Carnaval.
Durante uma rápida conversa, descobre-se que, no fundo, o que a secretária pretende é forçar as escolas para que elas se organizem melhor. "Eu já me coloquei à disposição das escolas para auxiliá-las no que for preciso durante todo o processo de formação da Liga. O que todos nós queremos é que haja mais organização", enfatizou Lucy. Com a criação da Liga, as escolas tornariam-se menos dependentes de recursos públicos e começariam a caminhar com as próprias pernas.
O ponta pé inicial para a independência, mesmo que parcial, dos carnavalescos jauenses poderá ser dado a partir deste Carnaval. Segundo Lucy, cada uma das seis escola de samba, juntamente com os blocos, terão o direito de explorar comercialmente uma barraca no Cartódromo Municipal, local onde será realizado o Carnaval Popular que está sendo organizado pela Prefeitura, para este ano, como uma forma de atenuar a falta de desfiles. A secretária garantiu que apenas as escolas e os blocos carnavalescos terão o direito de explorar as barracas. Em decorrência dessa exclusividade, Lucy espera que as escolas arrecadem dinheiro suficiente para começar a formar fundos para custear parte dos desfiles do próximo ano.
Carnaval Popular
A Prefeitura de Jaú estará realizando de sábado (24) a terça-feira (27), nas dependências do Cartódromo Municipal, o chamado Carnaval Popular. A entrada será gratuita e segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura deve haver um aumento no número de ônibus circulares, cujo itinerário passa pelo Cartódromo, para atender a demanda de transporte para o local.
Não haverá matinês. A festa ficará restrita aos shows à noite. A animação das quatro noites estará a cargo da banda Portal da Cor, de Apucarana (PR). Classificada como uma das melhores para a ocasião, segundo a Secretaria da Cultura, a banda conta com cerca de vinte integrantes, sendo seis bailarinas.
Essa foi uma forma encontrada pela Secretaria para não deixar passar em branco o Carnaval deste ano, em Jaú. Para tanto, a Prefeitura espera gastar cerca de R$ 80 mil. Uma economia de R$ 55 mil em relação ao que foi gasto no ano passado, com o desfile de rua. Lucy inclui nessa despesa a festa programada para o distrito de Potunduva, onde um trio elétrico e banda devem alegrar as noites daqueles que adoram uma folia. Para reduzir ainda mais os custos com o Carnaval, a Secretaria está buscando patrocínio junto às empresas locais. Lucy acredita que durante esta semana a questão deve ser resolvida.