Correu rápido como um rastilho de pólvora, dando a volta em todo o Planeta, neste início de semana, a informação divulgada a partir de Nova York, inicialmente colocada para o mundo todo, no site da Newsweek, segundo a qual a empresa norte-americana IBM deu importante suporte para que Adolph Hitler pudesse colocar em prática o Holocausto contra os judeus.
A revelação, publicada na edição desta segunda-feira pelos maiores jornais impressos, tema repetido nos canais de televisão e emissoras de rádio, além de inundar a Internet, provoca alvoroço na opinião pública internacional. O estopim partiu do escritor americano Edwin Black, que está lançando um livro A IBM e o Holocausto. A IBM, como se sabe, é uma das princesas do primeiro time das gigantes dos Estados Unidos. Pode-se até dizer, nas últimas décadas, que foi um dos pilares do desenvolvimento dos EUA. A acusação, que pelas evidências tem muito para ser verdade, fere na carne e muito doído o povo norte-americano. Fere o orgulho dos guardiães da democracia em todos os continentes e que agora também se arvoram de policiais do mundo.
A alegação da IBM, em sua defesa, também parece muito fraca. Fosse uma pequena encomenda recebida do füherer e entregue rapidamente, daria para acreditar que fora enganada pela astúcia demoníaca do líder alemão. Mas, pelo que se sabe, durante anos fabricou as Hol-lerith, máquinas processadoras, com cartões perfurados (essas máquinas faziam na época uma pequena parcela do que os computadores são capazes de fazer hoje), que continham os principais dados sobre as famílias judaicas, seus nomes, suas ascendências, descendências e localização. Se hoje sabemos que a informação é uma das coisas mais valiosas que a humanidade pode ter, também podemos avaliar o seu poder destrutivo quando nas mãos erradas.
O acontecimento envolvendo a IBM mais uma vez coloca o gigante na berlinda. O governo tem errado feio em suas incursões por motivos políticos ou não pelo mundo afora. Vide a frustrada campanha no Vietnã, com milhares e milhares de mortos, tanto de seus próprios soldados, quanto entre os vietcongs. A bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto de 1945, sem contar intromissões em vários países de todos os continentes. A ação da CIA no Chile, que culminou com o assassinato do presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. Quase o mesmo trabalho ocorreu na Argentina e em outras nações.
Quanto às indústrias, as multinacionais têm folha corrida das piores no que diz respeito à exploração da mão-de-obra. Mas muito pior no que diz respeito à contaminação, à poluição do meio ambiente.
Sobre o Holocausto, a maior tragédia localizada e perpetrada pelo próprio homem, na qual pereceram 6 milhões de judeus, num plano centrado na Alemanha e disseminado por vários países, principalmente Áustria e Polônia, numa ação em que se buscava a supremacia da raça ariana, parece que está longe de cessar a revelação de vítimas e algozes. Nem a Santa Sé escapou ilesa da história, com grave acusação sobre o papa contemporâneo da tragédia. Agora, a humanidade toda fica sabendo da forte participação da IBM sobre o genocídio. E todos nós, que participamos ao vivo e em real time do elenco deste show contemporâneo, poderemos morrer de tudo, menos de tédio e falta de indignação. Pelo jeito, o novo século também promete...
(*) B. Requena é editor de Internacional do JC