Líderes indígenas querem que o atual administrador preste conta dos recursos federais liberados durante o ano passado
Líderes indígenas das tribos Guarani e Terena estiveram ontem, em frente à Fundação Nacional do Índio (Funai), Regional de Bauru, para pedir a saída do administrador Rômulo Siqueira de Sá. Os índios, que estavam com os rostos pintados com as cores vermelha e preta, alegam que Siqueira de Sá não estaria se esforçando para resolver os inúmeros problemas enfrentados pelas aldeias. Mas a questão principal, que acabou motivando a manifestação, diz respeito à prestação de contas, exigida pelos índios, dos R$ 500 mil que a Funai teria recebido do Governo Federal durante o ano de 2000.
Nós queremos saber onde foi gasto esse dinheiro. Porque não estamos vendo nenhum resultado disso, desabafou Dário Machado, líder da tribo terena. Para ele, a função da Funai é proteger e ajudar as tribos indígenas que ainda restam no Brasil. No entanto, a realidade vivida por elas atualmente estaria beirando o abandono, segundo Vílson Fernandes Eusébio, representante das tribos do Vale do Ribeira, onde a situação seria a mais preocupante de todas.
A gente não tem casa, não tem assistência, não tem nada, protestou Eusébio, que engrossa a fila dos descontentes com a administração de Siqueira de Sá, que, para ele, é o responsável pela situação crítica vivida pelo seu povo, nas aldeias do Vale do Ribeira. Aquela área está completamente abandonada. Nem lona para levantar barracas nós temos, continuou Eusébio, vice-cacique da aldeia Pendo-Ty. O representante da aldeia Guarani, em Avaí, Anildo Lulu, acusa Siqueira de Sá de não pôr em prática nenhum projeto que pudesse trazer melhorias para as 24 aldeias indígenas espalhadas pelos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, as quais estão sob a responsabilidade da Funai de Bauru.
O administrador Siqueira de Sá não estava ontem na Funai, para ouvir as reivindicações dos índios. Mas de acordo com informações de funcionários da Funai, uma reunião teria sido realizada na última terça-feira, entre Siqueira de Sá e líderes indígenas. O assunto, segundo eles, teria girado em torno justamente de uma informal prestação de contas a respeito dos recursos recebidos. Porém, o teor da reunião não teria sido repassado aos líderes presentes na manifestação de ontem.
A saída de Siqueira de Sá, do comando da Funai, em Bauru, é uma exigência que os índios não abrem mão. Nossa posição é essa e não vamos mudar, afirmou Paulinho Terena, representante da aldeia Terena, em Avaí. Nós apoiamos a posse do atual administrador. Agora, estamos reivindicando sua saída. Temos esse direito, enfatizou. Siqueira de Sá assumiu o cargo em setembro de 1997.
Procurando exercer o direito que dizem ter, caciques de diferentes tribos, espalhadas por todo Estado de São Paulo, assinaram dois abaixo-assinados pedindo a exoneração de Siqueira de Sá. Um deles, com 14 assinaturas, foi encaminhado ao deputado federal Celso Russomanno, vice-presidente da Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias. O outro abaixo-assinado, com mais de cem assinaturas, teria sido encaminhado ao presidente nacional da Funai, Glênio Álvares da Costa.
Além de pedir a exoneração do atual administrador da Funai, em Bauru, os abaixo-assinados recomendam ainda a nomeação de uma pessoa que não tenha vínculo com a Funai de Bauru, que seja da confiança dos principais líderes indígenas e que possa pôr um fim nas desconfianças existentes hoje. Tais exigências deixam transparecer que já há um nome a ser indicado, pelos próprios índios, para assumir o cargo. Mas isso ainda está sendo mantido em segredo, entre eles. Caso não sejam atendidos, em suas exigências, os índios prometem continuar lutando contra a permanência de Siqueira de Sá e não descartam até mesmo o uso da violência. Embora seja uma possibilidade remota, ela existe.
O protesto de ontem serviu para que os índios terenas e guaranis desabafassem ao revelar a falta de assistência que, supostamente, estariam sofrendo. Anildo Lulu, da aldeia guarani de Avaí, aproveitou a ocasião para dizer que atualmente a situação estaria invertida. Hoje é o índio que assiste a Funai e não o contrário, como devia ser disse. No seu entender, a causa do povo indígena concede à instituição o direito a empregos e recursos públicos. Entretanto, esse mesmo povo estaria sem assistência, sem projetos e sem recursos. Por estar viajando, Siqueira de Sá não foi encontrado para comentar as razões do protesto.