Pesquisador defende formação de uma rede de apoio ao dependente, incluindo família, colegas e a sociedade como um todo
O tratamento contra a dependência química deve ter, necessariamente, a participação da família. A afirmação é do psicólogo Luiz Carlos de Oliveira, cuja dissertação de mestrado abordou o tratamento clínico da doença e as freqüentes recaídas dos pacientes aos quais estavam submetidos.
A dissertação virou livro: Por que voltei às drogas?, lançado pela Edusc, editora da Universidade do Sagrado Coração (USC). Na obra, o autor defende a formação de uma rede de apoio ao farmacodependente e à sua família durante e após o tratamento, envolvendo, além de uma equipe especializada, colegas, empregadores e a sociedade como um todo.
Embora seja difícil, o acompanhamento simultâneo da família é fundamental, porque ela é co-dependente da droga ao vivenciar todos os problemas decorrentes da doença e, em muitos casos, sofrer até mais que o próprio dependente, explica Luiz Carlos de Oliveira.
O apoio familiar é, de acordo com a pesquisa realizada pelo psicólogo, uma das razões que contribuem para o dependente manter a sobriedade. Junto à espiritualidade e ao desejo de ter uma vida saudável, são os itens de segurança para garantir a sobriedade, explica.
Sem esses suportes, a possibilidade de recaída aumenta. Fatores intrapessoais, ambientais e a crença religiosa influenciam na recuperação do sujeito. Uma vez em tratamento, o dependente muda e a família e os amigos precisam acompanhar essa mudança, caso contrário, a reestruturação de vida será muito mais difícil, aponta Oliveira, que atualmente estuda a prevenção às drogas dentro de seus trabalhos para a elaboração da tese de mestrado. Depois de instalado, é muito mais complicado reverter o quadro da dependência, justifica.
Depoimento de um toxicômano
Rogério*, 24 anos, desempregado, é dependente de drogas desde os 13 anos de idade. Há 7 anos tenta sair do vício. Hoje, encara a quinta tentativa de reabilitação. Para isso, trabalha como voluntário na Comunidade Bom Pastor, onde participa de reuniões de grupo de apoio a toxicômanos. Seus pais participam do encontro de apoio a familiares. Leia a seguir os principais trechos do depoimento concedido ao JC.
O meu primeiro contato foi com o álcool, aos 13 anos de idade. No primeiro contato, eu já me embriaguei. Estava com amigos de infância em uma festa de aniversário e chegou uma hora que perdi o controle, até colocaram detergente na minha bebida.
Na época, tinha muito complexo de inferioridade, por ser magrinho, mirradinho e tudo. Não me aceitava, tinha baixa auto-estima e passei a procurar me enturmar com pessoas mais velhas. Eu já trabalhava em um escritório e comecei a entrar na bebida devagarinho, no final de semana.
Depois, fui para a capital e lá tive o primeiro contato com a maconha. Tinha 14 anos. Logo em seguida, já experimentei cocaína. No caso da maconha, foi um primo meu e um colega dele que me ofereceram. A primeira sensação foi estranha e fiquei com medo da minha tia - com quem eu morava - perceber, mas testei e fui experimentando mais a cada final de semana, depois dia sim, dia não. Depois veio a cocaína - foram os mesmos colegas que me apresentaram -. Não tive resistência e engrandeci com aquilo, achei que era uma grande coisa usar drogas. Daí, fiz amizade com um traficante da cidade e passei a furtar. Larguei o emprego que eu tinha com meu tio, onde era office boy.
Naquela época, não tinha conhecimento do mal que a droga iria me causar. As pessoas falavam meio por cima, mas não dava ouvidos. Usava cocaína nos finais de semana e passei a traficar, junto com esse rapaz, e a furtar. Roubei muito toca-fitas nesse período. Foi quando minha mãe se mudou para lá com meu irmão.
Daí, minha mãe percebeu que não tive mudança nenhuma, pelo contrário, estava só piorando. Não queria parar de furtar e traficar porque ganhava em um dia o que levava um mês trabalhando. Achava que aquilo era a melhor coisa, que nunca iria ser pego pela polícia, e tal. Aí, viemos embora para Bauru e continuei a fazer o mesmo, até que passei a ser mal visto na cidade, inclusive pela polícia.
Cidade pequena, a polícia me pegava direto. Fui criando processo e, com 17 anos, me envolvi em um assalto à mão armada em uma casa de câmbio. Fui preso, passei duas semanas no Cadeião e depois fui para a Febem. Na volta, fiquei seis meses em liberdade provisória, tendo acompanhamento de psicólogo, dei um tempo, mas acabei voltando.
Com 18 anos, comecei a usar muito e caí para a cola de sapateiro, porque não tinha condições de roubar e ter a droga da minha preferência. Minha família cortou o dinheiro e comecei a fazer furtos dentro de casa - carteira dos meus pais e objetos domésticos -. Trocava todas as minhas roupas. Até que uma tia falou que havia uma comunidade na Bela Vista que poderia me ajudar. Vinhas nas reuniões, mas não queria nada com nada, não tinha consciência sobre o tamanho do meu problema. Achava que poderia usar de pouquinho, até que em 1997 estava mal, tinha passado para as drogas injetáveis, cola de sapateiro, crack. Fiz tratamento psiquiátrico, mas tomava os remédios misturados ao álcool.
Em 1997, insano, pedi carona para um rapaz e acabei furtando o relógio dele. A polícia estava atrás e acabei sendo preso. Fiquei 15 dias no Cadeião. Saí com liberdade provisória e fiquei 15 dias na rua, me drogando, fazendo avião. Aí, senti um vazio muito grande e resolvi pedir ajudar para a Comunidade. Fiz o programa inteiro, minha família também.
Com um ano de abstinência, resolvi ter um relacionamento com uma dependente. Me achava tão auto-suficiente que acreditei que podia ajudá-la. Ela estava mal. No começo, foi uma mês que conseguia jogar a droga dela fora, mas como gostava muito dela acabei indo junto.
Em 1999, fui interno para uma unidade em Mirassol. Fiquei um mês lá e depois permaneci nove meses sem usar. O problema é que não tinha um comportamento correto. Passei a freqüentar a avenida Getúlio Vargas de carro e um dia resolvi descer. Na terceira vez já estava bebendo. Como cerveja puxa a droga, aí voltei com tudo e tive até problema físico.
Em 2000, fiquei três meses em uma unidade de Agudos fazendo um trabalho de conscientização, para restabelecer meu físico, mental e espiritual. Sai de lá e vim para o programa de auto-ajuda da Comunidade, onde hoje trabalho como voluntário. Estou há oito meses abstinente.
Hoje, vejo que todas essas recaídas serviram para o meu crescimento. Admiro aquele que já está cinco, seis anos sem usar drogas, mas recuperação é um dia de cada vez. Devagar, se vai ao longe e vou chegar ao meu equilíbrio. Nunca vou poder dizer que tenho controle da minha vida, porque perdi o controle várias vezes.
Admito que era impotente perante o álcool e as drogas e que tinha perdido o domínio sobre minha vida. É o primeiro passo. Hoje, fiz o terceiro passo: entreguei a minha vida ao poder superior, às mãos de Deus. Tudo é a seu tempo.
Estou muito feliz. Sou voluntário e colaboro com a Comunidade com o meu trabalho. Não ganho dinheiro, mas estou ganhando a minha vida.
Depoimento concedido à jornalista Daniela Bochembuzo.
* Nome fictício, trocado a pedido do entrevistado.