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Câncer: 2ª causa de morte feminina

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 7 min

Transtornos psíquicos também são muito mais comuns entre mulheres. Especialista afirma que elas tentam mais suicídio

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que o câncer de mama é a segunda causa mais freqüente de morte por neoplasia maligna (câncer) entre as mulheres no mundo, sendo responsável por 18% dos óbitos. Representa 32% de todos os cânceres que incidem em mulheres e manifesta-se em uma em cada nove mulheres até os 85 anos de idade. Destas, 30% a 40% irá morrer pela doença. No Brasil, as neoplasias são responsáveis por 15,1% do total de morte em mulheres, sendo que 14,2% decorrem do câncer de mama (Ministério da Saúde, 1996).

A incidência do câncer de mama vem aumentando nos últimos anos e sabemos que isso está baseado fundamentalmente em três causas: primeiro, pelo crescimento geral da população feminina; segundo, pelo avanço da medicina, que permite o diagnóstico cada vez mais precoce da doença; terceiro e mais controverso, pela Terapia de Reposição Hormonal (TRH) - alguns dizem que ela aumenta em 1% o risco relativo da doença quando tomada por mais de dez anos, mas isso ainda é discutido, afirma a ginecologista Carla Lambertini Bonjorno.

Segundo a especialista, o câncer de mama é raro entre os homens (cerca de 0,1% das neoplasias) porque a mama masculina é um órgão extremamente rudimentar, com uma quantidade mínima de glândulas e ductos - locais onde aparecem os tumores. Em 1998, o Ministério da Saúde divulgou que a incidência da doença no Brasil era de 13%, sendo mais prevalente nos estados do Sudeste e Sul do País.

Segundo o geriatra Luciano Camargo, entre as pacientes da terceira idade, o diagnóstico do câncer de mama costuma ser uma achado: Porque tem toda aquela relação cultural, a paciente idosa não vai ao ginecologista. Por isso, incluímos a mamografia e o papanicolau nos exames do check-up periódico, que é para não termos surpresas lá na frente.

Útero

O câncer de útero pode aparecer em dois lugares: no colo uterino ou no endométrio (membrana que reveste internamente o órgão).

De acordo com a ginecologista, dados recentes do Ministério da Saúde indicam que o câncer do colo uterino é responsável por 18% dos tumores malignos em mulheres, sendo um dos mais freqüentes em países subdesenvolvidos. No Brasil, prevalece nos estados do Norte e Nordeste.

Ao contrário do câncer de mama, o câncer de colo pode ser evitado quanto maior for a procura da mulher pela prevenção, que é o exame de papanicolau. Descoberto no início, ele pode ser totalmente curado. Esta neoplasia está diretamente relacionada a questões de higiene íntima, doenças sexualmente transmissíveis - sobretudo o HPV (um vírus), à precocidade do primeiro contato sexual, à multiplicidade de parceiros sexuais e à multiparidade (mais que cinco partos).

O câncer do endométrio, segundo a especialista, acomete mulheres a partir dos 50 anos. Apenas 25% dos casos manifestam-se antes da menopausa, sendo extremamente raro antes dos 35 anos de idade. Estimam-se três casos para cada 100 mil mulheres por ano no Brasil, sendo, portanto, uma doença mais rara. Em países desenvolvidos, porém, é a segunda incidência de neoplasia feminina, sendo precedida apenas pelo câncer de mama. Acredita-se que isso se deva ao aumento da expectativa de vida nesses países e aos altos índices de obesidade e diabetes, doenças que predispõem ao câncer de endométrio.

Segundo a médica, a redução do número de filhos também contribui. É até engraçado: se ela tem muitos filhos, pode ter câncer de colo. Se tem poucos, pode ter câncer de endométrio. Mas é a neoplasia feminina com melhor prognóstico. Tem cerca de 94% de chance de cura quando o diagnóstico é feito nos estágios 1 e 2, pois ele demora para mandar metástase (espalhar-se por outros órgãos). O tratamento é a retirada do útero.

Ovário

Por ser assintomático nos estágios iniciais, o câncer de ovário é de difícil diagnóstico, segundo a ginecologista. Demora cerca de dois anos entre o aparecimento e os primeiros sintomas clínicos. Nós costumamos fazer uma triagem para esta neoplasia, que é a ultrassonografia pélvica e um marcador sangüíneo (CA-125), que prediz 40% dos casos.

A média salienta que tanto o câncer de ovário, como o câncer de endométrio podem ser prevenidos pelo uso de pílulas anticoncepcionais. A mulher que ingere as pílulas fica sem ovular, ou seja, os ovários permanecem adormecidos. Aí, não estimula a multiplicação das células, que é o que causa o câncer.

Transtornos emocionais

De acordo com a psiquiatra Elaine Oliveira, alguns transtornos psiquiátricos também são mais freqüentes em mulheres que em homens. Não existe uma causa bem determinada para isso, mas consideramos os fatores biológicos, hormonais, genéticos e os fatores psicossociais, ou seja, a mulher reage de uma forma diferente aos estímulos emocionais. Além disso, culturalmente, as mulheres procuram mais ajuda que os homens, porque é mais fácil para ela lidar com esses transtornos.

Segundo Elaine Oliveira, a depressão é o transtorno cuja prevalência feminina é mais importante e inclui todos os tipos de depressão, desde as manifestações mais leves até as mais severas. A proporção é de mais ou menos duas mulheres para cada homem. E tem um agravante: as mulheres cometem mais tentativas de suicídio que os homens, porque se descontrolam mais facilmente. Só que os homens morrem mais, porque quando eles chegam ao ponto de se descontrolar e planejar o suicídio, as tentativas são mais reais e estão ligadas a patologias mais desestruturantes.

Outro distúrbio mais freqüente em mulheres, segundo a especialista, são os transtornos de ansiedade, com todas as suas variáveis, como as fobias, crises de pânico e ansiedade propriamente dita. Também são mais comuns em mulheres a bipolaridade de humor, que levam a paciente a oscilar entre a euforia e a depressão em poucos minutos, sem qualquer motivo aparente.

Tem também os transtornos somatoformes, as doenças psicossomáticas. Aí com uma ressalva - os homens somatizam os problemas com alterações cardíacas e respiratórias. Nas mulheres, são mais freqüentes as manifestações gástricas e imunológicas, além dos sintomas vagos, como cefaléias (dores de cabeça), náuseas, vertigens, entre outros.

As disfunções sexuais ligadas ao desejo (libido) a ao prazer também são apontadas pela psiquiatra como problemas mais freqüentes em mulheres. Por questões culturais, sociais e hormonais. As mulheres têm maior facilidade a sentir apatia sexual, frigidez e ter dificuldade de atingir o orgasmo. Nos homens, as disfunções sexuais manifestam-se mais como transtorno de identidade, como o travestismo, o transexualismo, e nas perversões, que são quase exclusivamente patologias masculinas.

Por fim, a médica cita os transtornos psiquiátricos exclusivos da mulher, que são os ligados à menstruação (TPM), gravidez e menopausa. A tensão pré-menstrual, por exemplo, ainda é vista por alguns como algo que não existe. Mas existe e algumas mulheres chegam a ter surtos psicóticos nesta época, apresentando interpretações delirantes de fatos da realidade, irritabilidade incontrolável. Temos até casos relatados na literatura médica de assassinatos cometidos por mulheres na TPM. Isso acontece em mulheres que já têm um componente psiquiátrico e isso pode ser desencadeado nesta fase.

No caso da menopausa, a cardiologista Sandra Rodrigues salienta que os estudos observaram sintomas psíquicos em 86% das mulheres menopausadas, variando desde alterações menores, como a apatia e baixa auto-estima, até quadros de depressão profunda.

É importante colocar que as pessoas ainda subestimam os transtornos psíquicos. A depressão, por exemplo, é uma doença que precisa ser tratada, pois pode desfuncionar totalmente o organismo da paciente e interferir seriamente em seus relacionamentos familiares, sociais e de trabalho. Por isso, pessoas que percebam alterações de humor, dificuldade em sentir prazer nas coisas do dia-a-dia que se prolonguem por mais de dois meses, precisam ser investigados por um médico. Porque muita gente acha que são características de personalidade e estão doentes, diz a psiquiatra.

Sobre o temor que as pessoas têm de tornarem-se dependentes dos medicamentos nestes tratamentos, o geriatra Luciano Camargo ressalta que antidepressivos bem usados não causam dependência e são totalmente retirados ao final do tratamento. Ele explica que os ansiolíticos é que são drogas cuja dosagem vai sendo aumentada periodicamente. Mas se a depressão é bem tratada, a pessoa pode ser curada e ficar totalmente livre dos remédios, conclui.

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