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Construindo o próprio castelo

Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Nós tínhamos acabado de sair de Edinburgo e nos dirigíamos para o norte da Escócia. Um amigo alemão e eu éramos hóspedes dos Albergues da Juventude, o que na Escócia significa ter pelo menos duas vantagens. A primeira, ter à disposição um pequeno ônibus, os chamados Haggys, que circulam regularmente pela Escócia levando os turistas de um albergue para o outro.

A segunda vantagem é que o motorista, geralmente um escocês orgulhoso de seu país, acaba funcionando como guia turístico. Durante a viagem, além de relatar aspectos da história e da cultura da terra, o motorista mostra pontos imperdíveis do percurso.

Naquele dia, tínhamos formado um grupo bem animado e de diversas nacionalidades: um alemão, um brasileiro, dois australianos, três francesas e duas americanas. Em um determinado momento o ônibus parou à beira de um lago. A paisagem era realmente mágica. Um lago azul cercado de montanhas com uma vegetação rasteira e muitas rochas.

Tínhamos a impressão que estávamos em plena Idade Média e a sensação que, a qualquer momento, um grupo de cavaleiros celtas apareceriam. A paisagem era dominada pela presença de um castelo que ficava à beira do lago. Construído na rocha ele parecia ter saído das lendas do Rei Artur ou do Santo Graal.

O nosso motorista, porém, nos trouxe à realidade contando a história do imponente castelo, um dos cartões postais da Escócia. Muito antes de sua construção, Nostradamos havia previsto que um castelo, à beira daquele lago, seria construído na rocha.

No século passado um milionário ficou sabendo da tal profecia e resolveu então cumpri-la, construindo o castelo medieval. Querendo prosseguir com a viagem, o motorista terminou sua história com bastante objetividade: Aqui é assim, se o destino não se realiza, nós realizamos o destino!

O ser humano vive muitas vezes em um paradoxo. Ele só consegue ser feliz vivendo em liberdade. Esta liberdade, porém, o amedronta e o medo de ser livre, acaba fazendo com ele crie mecanismos de dependência. Ele torna-se um pouco como aquele filho que não quer crescer e fica sempre na dependência do paizão.

Diante das interrogações e incertezas que a liberdade lhe traz, o ser humano procura explicações simples e imediatas que lhe dêem segurança, conforto e conformismo. Isso já estava escrito, tinha mesmo que acontecer, foi Deus que quis assim, são expressões que respondem ao inexplicável ou tentam dar-nos uma resposta a um fato que não queremos admitir como verdade.

Há várias formas de fuga da liberdade. Uma delas é colocar-se nas garras do destino. Com medo da liberdade muitos fazem-se marionetes do chamado destino. Uma força superior domina e pré-estabelece os fatos da vida humana e o ser humano vive sob uma espécie de fatalismo. Aqui acontece uma triste inversão: o ser humano deixa de ser o sujeito do fatum, e passa a ser seu objeto. O chamado destino pode ser camuflado como seres sobrenaturais ou forças da própria natureza.

Outra forma de fuga da liberdade é uma relação de dependência com Deus, ou seja, o ser humano torna-se adulto, mas continua vivendo a mesma religiosidade que tinha quando criança. Deus é para ele um ser paternalista que resolve, ou pelo menos deve resolver, as suas dificuldades encontradas na vida. Esta relação infantil, presente em todas as religiões, significa, na verdade, uma inversão dos papéis.

O homem acaba jogando sua responsabilidade para este Ser Superior que chamamos de Deus. A oração é substituída pela ação, os hospitais pelas sessões de cura e a religião acaba sendo confundida com éter.

Com certeza, Deus, em toda a história da humanidade, nunca eliminou do mundo a miséria, a fome, as injustiças sociais, o sofrimento do homem, e creio que nem o fará. Portanto, não adianta o homem ficar implorando a Deus para melhorar o seu destino, se ele não luta para modificá-lo. Não adianta implorarmos a Deus para acabar com a miséria do país, se nós não nos politizamos, não controlamos a ação de nossos governantes e nem nos revoltamos contra a corrupção e a falta de dignidade de grande parte da população.

É interessante que, em plena modernidade, muitos vivem em uma espécie de Mitologia, com uma típica visão de mundo da Antigüidade. Na Mitologia os deuses controlavam e determinavam o destino dos homens.

Estes procuravam com ofertas e sacrifícios sempre estarem de bem com os deuses. O homem moderno, porém, possui a liberdade de viver o dilema de Édipo, ou ser o sujeito de sua própria história.

Ser dependente de seu destino, de uma força superior, ou enfrentar os desafios da vida com responsabilidade, solidariedade e amor, construindo o seu castelo sem esperar que as profecias se cumpram.

Para a formiga o orvalho é uma inundação (Provérbio Sanscrito)

(*) Especial para o JC CulturaFale comigo pelo e-mail: roberto.daniel@lycos.com

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