Depois de 30 anos de carreira, a cadência do sambista, que canta como uma diva de jazz, continua perfeita
Qualquer dono de gravadora gostaria de ter Martinho da Vila em seu time. O acadêmico do samba, catedrático de Vila Isabel, conhece o ponto exato da alquimia da música popular, faz músicas fadadas ao sucesso porque consegue cantar você é meu sol sem soar piegas. Ele é um gênio da inflexão. Como uma diva de jazz, o que ele canta não é o mais importante e sim como ele canta. O homem entende do riscado.
No show que fez esta semana em Bauru, na Carvejaria dos Monges, o cantor e compositor mostrou o que é ser um artista popular. O público está frio, ok? Vamos ver até onde ele resiste.
Ele é um centro-avante matador, um boxeador perigoso. Anuncia que vai embora, não vai e ganha a platéia aos 45 do segundo tempo, no último round. Quando o show parecia que ia acabar, ele canta todos os seus hits, um atrás do outro: Mulheres, Madalena do Jacu, Dancei, Canta, Canta Minha Gente, Devagar, Devagarinho e Casa de Bamba. Martinho ergue os braços, se autoproclama vencedor, e sai do palco andando tranqüilamente, gingando como um bom malandro, controla o tempo.
Leia a seguir a rápida entrevista que o sambista concedeu ao Jornal da Cidade, no final da tarde de quinta-feira, enquanto se preparava para testar o som para o show.
JC Cultura - Você já fez discos de pesquisas sobre o folclore, a variedade do samba, a vida no Rio de Janeiro e a língua portuguesa, mais recentemente. Como surge o interesse de ir a fundo em um tema, você busca conceitos para amarrar seu trabalho?
Martinho da Vila - Eu acho que na música, no disco, em tudo, você tem que ter uma troca. Você tem um público que compra... é por causa do público que eu estou aqui. Eu tenho que dar alguma coisa em troca. Então, nos discos todos, eu procuro passar uma informação nova.
As coisas do norte podem, em um disco, chegar até uma pessoa do sul e vice-versa. Coisas daqui do Brasil ou de fora, a gente vai trocando.
JC Cultura - Você é um artista bem conhecido no exterior, tem discos lançados e faz shows com freqüência fora do País. Você considera este intercâmbio importante para o fortalecimento da sua música?
Martinho - Com a música eu viajo e viajar é bom, você conhece coisas, uma coisa é você ouvir falar de Bauru e outra é vir para Bauru. É importante esta internacionalização para o conhecimento real das coisas.
JC Cultura - E você também sente que leva o Brasil e a língua portuguesa na bagagem?
Martinho - Isso acontece naturalmente, as coisas que eu faço têm uma carga grande de brasilidade. Então, quando nós chegamos lá, chega o Brasil.
JC Cultura - E em relação à África, você costuma dizer que se sente em casa nos países africanos...
Martinho - O Brasil é uma África. As favelas brasileiras são áfricas purinhas, o subúrbio do Rio de Janeiro é uma África, a periferia de São Paulo é uma África.
JC Cultura - Como um músico que tem mais de 30 anos de carreira, você já viu o samba ser declarado morto e ressuscitado várias vezes. Na sua opinião, qual é o motivo desta síndrome de Lázaro?
Martinho - O samba é a música do Brasil, sempre que surge um movimento que fica mais evidente, que fica mais na mídia, todos os outros ritmos não estão na mídia, só está um, mas todo mundo fala, ih, o samba morreu. Tem um samba no Nélson Sargento que diz o samba agoniza, mas não morre. Eu nem concordo com esse samba. De norte a sul, o samba está sempre forte, é a música mais consumida no Brasil inteiro.