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Bibliotecas públicas, porque necessárias

Jayme Vita Roso
| Tempo de leitura: 3 min

O atual governo socialista francês decidiu, definitivamente, dar uma reviravolta no absenteísmo, sobretudo dos jovens, em freqüentar bibliotecas públicas. Para isso, está utilizando uma estratégia fortíssima de incentivos: construção de novos e seguros edifícios; aquisição de livros, sobretudo de autores nacionais ou que escrevem na linguagem francesa; obter apoio dos meios de comunicação, inclusive programas de televisão, debatendo a importância da leitura e mais facilidade nos empréstimos das obras.

Mais sensata é a medida do governo central, porque os incentivos são, de modo particular, concedidos aos municípios, que, conhecendo melhor as suas necessidades, optam pela distribuição dos edifícios, quando a carência é relevante. Essa política é também sagaz, porque procura atingir as localidades em que existem grandes contingentes de imigrantes e seus filhos. A percentagem de iletrados, dentre eles, é muito alta, com todos os vícios de origem. Além da leitura, os jovens podem se reunir com maior freqüência, nas bibliotecas, criando, em conseqüência, clubes literários oriundos daqueles locais, aguçando os debates de todas as naturezas e criando uma massa crítica notável, pois amalgama o ceticismo clássico, com o temor inato daqueles que constatam o valor da liberdade e da livre expressão. Entre 1980 e 1999, as bibliotecas municipais registraram empréstimos de livros de 59,3 milhões a 155,1 milhões. Espetacular esse crescimento.

Além disso, como a jornada de trabalho, na França, foi reduzida, as autoridades municipais, por consenso, esperam, nos próximos três anos, aumentar para 50 horas semanais a possibilidade de freqüência.

Tomando o exemplo de Montpellier, ao sul do país, a municipalidade aplicou na construção da nova biblioteca-sede o equivalente a 60 milhões de reais. Para mantê-la, garantindo o direito do autor, com a leitura pública e vendendo menos sua obra, ela cobra de taxa dez reais dos adultos e a freqüência é paga simbolicamente, através de valores mínimos. Para se ter uma idéia do interesse dos freqüentadores, é estimada para 2001 uma receita de quase um milhão de reais, provenientes dessa fonte.

De outro lado, em Marselha, cidade com um contingente elevadíssimo de imigrantes, todos muito pobres, a municipalidade foi além do que, nós, cidadãos do reinado de FHC, imaginamos: construiu um prédio de 20.000 m2, com onze mil abertos ao público, sendo 1.600 lugares reservados para leitores sentados e 300 para consultas informáticas. O investimento foi na ordem de 100 milhões de reais, passando, brevemente, a empregar 200 profissionais no seu funcionamento.

Há uma forte discussão - de natureza econômica - que está dando alguns mal-estares: onde e de quem comprar tantos livros para preencher os acervos, já que, tudo, quase ao mesmo tempo é geralmente comprado das grandes livrarias ou das editoras (Havres, Rennes, Brobaux, Nancy, Ajaccio, Orleás e Reims). As pequenas livrarias, nas cidades em que se instalam as megabibliotecas, querem ter participação na venda, pois sofrem concorrência cerrada das megalivrarias. Procuram os administradores encontrar soluções econômicas, política e sociais, pois, se não interessa pagar mais nas aquisições, menos ainda que os microempresários fechem as portas. Em suma, assiste-se, outra vez, a nova revolução cultural na França, único país que ainda ousa enfrentar a avassaladora influência norte-americana. Mas esse Davi é inteligente, usa o cérebro e joga no futuro, para atingir o monolítico Golias. Amém! (Jayme Vita Roso, advogado, é conselheiro da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Federação Interamericana de Advogados (FIA) - E-mail: vitaroso@dialdata.com.br)

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