Os maus tratos a crianças e adolescentes por parte dos pais podem estar relacionados à violência com que estes foram educados na infância. É o que acredita Simone Regina Braz, que recentemente apresentou seu trabalho de conclusão do curso de Serviço Social, no Instituto Toledo de Ensino (ITE), em que defendeu essa idéia.
Simone afirma que os pais que foram tratados com agressão apresentam tendência a passar isso aos filhos. Muitas pessoas acreditam que se não bater no filho ele não estará sendo educado. Eles acham que para educar, têm que bater. Isso faz parte da cultura deles. Se eles apanharam quando criança, eles tendem a passar isso para os filhos.
A diretora da faculdade de Serviço Social da ITE, Egli Muniz, que orientou o trabalho de Simone, concorda com a afirmação. A violência sofrida pelos pais, na infância, acaba sendo passada aos filhos quando eles constituem família.
Ela acrescenta, ainda, que o trabalho do Centro Regional de Registro e Atenção aos Maus Tratos à Infância (Crami) tem levado os pesquisadores de Bauru a acreditar cada vez mais nessa afirmação. Essa é uma tese comprovada cientificamente. Já foram feitas inúmeras pesquisas sobre isso e na vivência do Crami essa questão acaba aparecendo de forma forte.
Simone, que esteve trabalhando como estagiária no Crami, pensa que as visitas domiciliares e as entrevistas que realizou com membros de famílias que passam por esse problema foram um estímulo à pesquisa que realizou. Eu queria saber o que levava os pais a agredir os filhos dessa forma. Isso não entrava na minha cabeça. No Crami, nós fazemos visitas domiciliares. Em uma dessas, em que eu estive na casa de uma família, a criança estava cheia de hematomas.
O Crami é um órgão ligado ao Conselho Tutelar de Bauru que trabalha a violência contra a criança e o adolescente, em ambiente familiar. Vanessa Nagamine, que é assistente social do Crami, esclarece que são realizados programas emergenciais para atender a famílias que necessitam de ajuda. Quando recebemos denúncias, vamos até o local para verificar a procedência da informação. Conversamos com os pais e observamos o ambiente familiar em visitas periódicas, nas quais oferecemos orientação a essas pessoas.
De acordo com Vanessa, a maior parte das denúncias recebidas pelo Crami são anônimas. Outra parcela significativa é realizada por familiares que convivem cotidianamente com o problema da violência. Instituições e a própria comunidade também colaboram com esse trabalho, denunciando os casos mais graves.
Entre os casos de violência que são praticados contra crianças e adolescentes, estão a violência física, a psicológica, a sexual, a negligência, o abandono e a violência fatal. Os dados do Crami indicam que em 2000 foram registrados, em Bauru, 100 casos de violência física, 70 de negligência, 40 casos de violência psicológica, 15 de abandono e oito de violência sexual. Além disso, em 101 casos foram praticados mais de um tipo de mau trato.
Vanessa esclarece que a violência psicológica está, muitas vezes, associada a outras, como a agressão física. Um tapa pode provocar uma agressão muito mais forte do que os pais imaginam. Ele atinge o fator psicológico da criança, deixando-a com medo, acoada e coagida.
Simone coloca que, em muitos casos, a família não aceita a intervenção do Crami e até mesmo omite o fato por medo de punição. Há também os casos em que a orientação não é suficiente para que os pais mudem de comportamento. Em alguns casos, nós percebemos que a violência está sendo controlada; há um resultado perceptível. Em outros, o caso é encaminhado ao Conselho Tutelar, já que não recebemos respostas práticas às orientações.
O Crami tem como fundamento para suas atividades o Estatuto da Criança e do Adolescente, que estabelece, em seu artigo 5.º: Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.
Egli faz uma pelo à população para que procurem atendimento ao ter conhecimento de casos de violência, ligando para o Crami. O telefone é 238-3000. Temos que trabalhar para que os agredidos não tornem-se agressores e para que esse ciclo na violência não se cumpra.