Após ter sido resolvido o affaire da vaca louca entre os governos brasileiro e canadense, o que é esperado para, no máximo, até o final do mês de fevereiro, com a retomada das exportações de carne bovina para Estados Unidos, Canadá e México, será, então, a hora de o Itamaraty fazer um balanço realista do desenrolar de toda a crise. Nunca, na história recente de nossa diplomacia, aconteceu episódio semelhante a este. Curiosamente, a opinião pública e a imprensa canadense não apoiaram, desde o início, o boicote à carne brasileira, o que pode dar uma pálida idéia do tamanho do erro de avaliação, cometido pelos estrategistas comerciais daquele país.
Na verdade, fatos semelhantes a esse (não com a mesma intensidade) têm sido corriqueiros no intercâmbio do Brasil com os parceiros comerciais do chamado 1.º Mundo. Foi assim com os calçados, quando o País começou a exportá-los; com os têxteis, o café solúvel, o frango, os laminados de aço, o suco de laranja e, por fim, com os leves e sofisticados aviões da Embraer. Especialistas em comércio exterior já fazem previsões sobre nossos próximos produtos de exportação candidatos a serem alvos da sanha protecionista das nações mais desenvolvidas. As apostas concentram-se nas frutas.
Por falar nelas, em palestra realizada no final do ano passado, em Recife, o embaixador americano no Brasil, Anthony Harrington, do governo Clinton, que poderá ou não ser mantido no cargo por Bush, fez um extenso elogio à qualidade de nossas frutas tropicais. Mais do que isso: declarou-se surpreso pelo fato de seu país importá-las da Indonésia, da Tailândia, da China e do Ceilão, ou seja, do outro lado do mundo, quando há uma grande oferta de tais produtos, e de excelente qualidade, aqui mesmo, no Brasil.
Excentricidades à parte, seria bom que o Itamaraty começasse a fazer sondagens diplomáticas com nossos parceiros do Mercosul, aí incluídos o Chile e a Bolívia; e também com os vizinhos da Comunidade Andina, para boicotar a próxima reunião de cúpula da Alca, prevista para o mês de abril, por coincidência, em Quebec, no Canadá.
Essa será uma oportunidade única de a América do Sul mostrar que sabe unir-se nos momentos de crise em torno da defesa de interesses comuns. E isso justamente diante do todo poderoso Nafta, que reúne os Estados Unidos, o México e o Canadá, atualmente vivendo os papéis de bad brothers, num hipotético filme de faroeste em que os mocinhos, de repente, se encontrassem todos ao Sul do rio Grande.
Guerra é guerra, disse, recentemente, o presidente Fernando Henrique Cardoso, referindo-se às divergências comerciais entre a Bombardier e o Canadá e a Embraer e o Brasil. Nessa mesma linha de raciocínio, o intempestivo boicote retaliatório, sem o prévio e necessário aviso, recomendado pela Organização Mundial do Comércio (OMC), em casos semelhantes, e adotado pelo governo canadense à nossa carne bovina, dá ao governo brasileiro o mesmo direito, ou seja, de também boicotar a próxima reunião da Alca.
Se a diplomacia brasileira conseguir boicotá-la, ainda que de forma simbólica, mandando para o encontro apenas representantes extra-oficiais, na qualidade de simples observadores, com certeza, no futuro, os governos dos países do G-7 pensarão muito antes de impor medidas protecionistas para impedir o acesso de produtos das nações em desenvolvimento a seus mercados.
Além disso, o boicote à Alca constituir-se-ia em oportunidade única para o fortalecimento do Mercosul e da Comunidade Andina em relação ao Nafta.
(Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM). E-mail: presidencia@advbfbm.org.br)