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Antes tarde do que nunca

(*) José Almodova
| Tempo de leitura: 4 min

Desde criança, quando já cursando o antigo Grupo Escolar (Guarantã/1934), a primeira professora acompanhava seus alunos lecionando nas quatro séries até finalizar o curso primário. Por caipirismo e mutismo, sempre guardei comigo dúvidas que talvez jamais as houvesse buscado e conseguido esclarecer.

Pensava com meus botões: não adianta perguntar para o colega de carteira porque a professora fica brava, e pensava: eles também não sabem. Perguntar aos pais pouco adiantaria, a mãe analfabeta e o pai (embora autodidata), voltava para casa morto de cansado labutando o dia todo na roça, levantando-se às 5 da manhã. Perguntar à nossa primeira professora (que mais tarde verifiquei tratar-se de excelente pedagoga), nem pensar. Por mais que eu a adorasse ao ouvi-la falar -e pensasse em remedá-la nas aulas que um dia eu lecionasse- ela nunca possuía tempo extra de sobra; mas o que dava de matéria e cobrava tarefas de casa...

Em particular, humildemente eu pensava: como será que a professora aprendeu tudo isso que ensina e escreve no quadro negro, e, manda estudar para amanhã, senão..., lá vem castigo: puxão de orelhas (com as unha compridas que tem), reguadas, ficar de pé na frente num dos cantos da sala -a palmatória já era proibida- até o final da aula ou no intervalo do recreio. Neste, eu e a maioria, geralmente lanchávamos banana, às vezes, bolinhos de chuva. Ficávamos de olho nos que trocavam parte do lanche com aqueles mais abastados, que traziam sanduíche de pão com queijo prato e salaminho, bolos, doces de padaria e ou caseiros. Assim éramos as crianças daquele tempo, que não obstante, amávamos nossos professores conhecendo-os por seus nomes (não existiam tios e tias de hoje, o que achincalham os nomes próprios de cada um). Sem qualquer dúvida, nossos pais nos entregavam a eles sob total confiança e respeito recíproco, sem o menor índice de reclamações de ambas as partes, ou discussões quanto às formas de procedimentos e lisura do ensino que nos era passado.

Antes tarde do que (...) Naquele tempo havia poucas faculdades e pouquíssimas universi-dades. Assim, inexistia a menor dúvida quanto ao possível descaso dos ínclitos organismos de ensino (quanto à corrupção do ensino educacional público e privado). Jamais alguém duvidara da presença de insensatez e tivera acuidade de avaliar o ensino em tais órgãos.

É de há muito, porém, que vínhamos observando e vivendo (em nossas atividades universitárias) o desmantelamento cultural do ensino nos organismos de grau superior. Tais organismos, apesar de tudo, sempre tiveram grande demanda nos cursos universitários. No decorrer dos tempos, entretanto, a inércia administrativo/cultural tomou conta da ação de despreocupação com a valorização técnica dos cursos. O fato levou ao desânimo quase total os mal pagos professores qualificados. Estes buscaram outras atividades ou migraram para os organismos educacionais recém-criados, promovendo a industrialização do ensino.

Finalmente, surgiu na área o cidadão Paulo Renato Souza, guindado pelo presidente Fernando Henrique a ministro da Educação. As coisas -embora aos trancos e barrancos- começaram a mudar. O cidadão mostrou-se útil ao País, arregaçou as mangas colocando o dedo nas grassantes mazelas do ensino, que sabidamente vinham denegrindo o agora seu Ministério. De saída, sua excelência sentiu o peso do antagonismo declarado que teria pela frente: alunos, organismos infiltrados e as próprias escolas superiores. A demonstração de força não tardou, surgiu dentre os que outrora (quando havia comunismo), instigavam os alunos apoiados na representação estudantil, a UNE. Facção abjeta, atualmente pouco manifesta -a exemplo de outros organismos partidários- ainda mantendo a foice e o martelo.

No decorrer das pesquisas por estes anos (experiência iniciada em 996), o ministro passou a colher as informações que esperava, através do apelidado provão, realizado em (29/6/1997), quando Bauru deu Exemplo de maturidade escolar superior, isto é, os resultados positivos obtidos aqui em nossas faculdades foram excelentes. (Artigo que publiquei em 10/7/1997).

A cada ano seguinte a reação declinava (não somente dentre os estudantes, as próprias escolas, como pela ação da facção estudantil). Enquanto isso, o ministro Paulo Renato reunia dados mais aceitáveis, embora alguns negativos, dentre grande rol de escolas no Brasil.

Moral da história: hoje, o ministro, medindo resultados estudantis, conhece as diferenças entre as melhores e as piores escolas do País. Valeu, ministro Paulo Renato. Fico por aqui.

(*) José Almodova é professor-Mestre em Projeto Arte e Sociedade pela Unesp

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