Jaú - Quando ouviu dizer que um dos atuais líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) tinha o apelido de Sombra, o delegado seccional de Jaú, Benedito Antonio Valencise, ficou intrigado. Seria o mesmo homem que ele ajudara a prender há cerca de 15 anos? Uma rápida consulta junto aos arquivos da Polícia Civil jauense confirmou a suspeita. Sim, era o mesmo Sombra que já havia levado o terror a Jaú no final de 1986 e início de 87.
Idemir Carlos Ambrósio, 41 anos, é natural de São Carlos e naquela época já tinha o apelido que carrega até hoje. Como bem lembra o delegado Valencise, os crimes onde o Sombra se evolvia eram considerados violentos.
Em Jaú, dois roubos a residências de famílias tradicionais da cidade foram atribuídos a Sombra e seu grupo. Um deles aconteceu em dezembro de 86 e outro em janeiro do ano seguinte. Segundo Valencise, as vítimas foram rendidas e ameaçadas de morte. Os bandidos não chegaram a ser presos em flagrante, mas logo após os crimes a polícia, principalmente o Setor de Investigações Gerais (SIG), iniciou uma verdadeira caça aos ladrões.
Alguns dias após o último roubo a polícia identificava e prendia Sombra, que passou algum tempo na cadeia pública de Jaú e depois acabou sendo transferido para outra prisão.
Antes de chegar a Jaú, Sombra teria atuado em São Carlos. Segundo o delegado, o marginal chegou a cumprir pena numa prisão daquela cidade, de onde teria fugido.
Naquele tempo, Sombra já era visto como uma espécie de líder que prometia sucesso na escalada do crime.
Na ficha criminal que até hoje consta dos arquivos da Polícia Civil de Jaú, registra-se que Sombra era garçon, casado e tinha 1,72m de altura. O delegado Valencise, que em 86 era investigador de polícia, conta que ao lado dos também investigadores Moreira, Sabio e Miguel, participou da equipe que trabalhou nas investigações e buscas ao grupo de Sombra.
PCC
Hoje, depois de 15 anos, o nome de Sombra figura entre os principais líderes do PCC, uma das facções criminosas que exerce um verdadeiro domínio sobre presos de quase todo o Estado. Na lista de líderes constam ainda os nomes de Alcides César Delaçari, o Blindado, Marcos Willian Herbas Camacho, o Marcola, dentre outros.
Ninguém sabe dizer exatamente quantos integrantes tem o PCC, a facção criminosa que já estaria atuando além das fronteiras do Estado. Calcula-se que os membros batizados da facção sejam algo em torno de 1,5 mil. Há que se considerar ainda os simpatizantes dessa corrente, o que elevaria o número a cerca de 5 mil. Hoje, eles teriam representações na maioria dos presídios.
Estima-se que o PCC tenha se originado dentro do Centro de Reabilitação Penitenciária de Taubaté, nos anos 90, para onde eram levados os presos indisciplinados, aqueles que matavam dentro de presídios ou lideravam rebeliões.
A rebelião em cadeia ocorrida no último fim de semana teria como origem a revolta dos pececistas com a transferência de alguns líderes do comando. A transferência aconteceu na manhã do dia 16 último quando, numa operação surpresa, a polícia invadiu a Casa de Dentenção, no Carandiru e além de retirar dezenas de celulares transferiu nove supostos líderes do PCC para prisões do Interior e também do Sul. Entre eles, estava o Sombra, que teria sido transferido para o presídio de Presidente Venceslau. A ação da polícia teria desarticulado o comando uma vez que isolou os principais membros da organização criminosa.
Estatuto
O PCC seria detentor de um tipo de código rigoroso que prega a obediência mesmo depois que o detento consegue a liberdade. Seriam dez os mandamentos da organização. Em um deles constaria que o integrante do PCC que estiver em liberdade, bem estruturado, mas se esquecer de contribuir com os irmãos que ainda estiverem nas prisões, será condenado à morte, sem perdão.
Além do PCC, outra facção, a do Comando Democrático da Liberdade (CDL) também ganha adeptos dia a dia dentro dos presídios.