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Rede mantém leilão da estação da NOB

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Inaugurada em 1 de setembro de 1939, a antiga gare da Noroeste do Brasil está abandonada à própria sorte

Considerada um dos maiores símbolos do desenvolvimento de Bauru, a estação da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil está com seu destino selado. Até o presente momento, não há nenhuma medida legal que impeça a Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) - estatal em fase de liqüidação - de vender o prédio da estação da NOB, um marco da história ferroviária da cidade.

Ontem, a assessoria de imprensa da presidência da RFFSA, sediada no Rio de Janeiro, informou que o processo que culminará no leilão do imóvel está mantido, embora ainda não esteja definida uma data para a realização do pregão. A informação foi confirmada pelo escritório regional da estatal em Bauru, também responsável pelo encaminhamento da ação.

Abandonada à própria sorte, o prédio da administração da Noroeste e a gare viraram abrigo para indigentes, desocupados e marginais. Suas três plataformas, que no passado recebiam, de duas dezenas de trens diários, desde pessoas simples até governadores de Estado, estão ao relento. Hoje, o mato, o cheiro fétido de fezes e urina ocupam o espaço e o glamour que imperaram por mais de meio século. Não há mais passageiros, não há mais movimento. Os trens, com suas inconfundíveis cores azul e branco, partiram para uma viagem que não tem mais volta.

Até mesmo os corrimões de cobre e bronze pregados nas paredes dos túneis de passagem, que davam acesso às plataformas de número dois e três, foram roubados. O imenso relógio fixado pelo lado de fora da estação - testemunha frontal dos bons tempos de movimento da praça Machado de Mello - parou no tempo. Os vitrais azuis que davam acabamento nas duas pontas da gare estão estilhaçados. Sinal de vida no local, além dos desocupados e marginais, só o assovio discreto do vento. Nada mais.

Valor

A data de inauguração da estação da Noroeste do Brasil jamais será esquecida pelas pessoas que testemunharam a grande festa. Enquanto o então general Marinho Lutz - diretor da ferrovia na época - fazia o desenlace da fita inaugural do prédio, o exército de Adolf Hitler invadia a Polônia. Era 1º de setembro de 1939. Começava a 2ª Guerra Mundial. Infelizmente, as edições dos jornais locais do dia seguinte tiveram que dividir a grande conquista para a cidade com a triste notícia que chegava da Europa.

Passados 62 anos, a gare da NOB está à venda. Um patrimônio histórico não deveria ter preço. Deveria ser, no mínimo, preservado para que as gerações futuras pudessem ter a oportunidade de entender o passado de uma cidade e de sua comunidade. O charme sexagenário da estação foi avaliado em R$ 3,5 milhões. É o valor mínimo dado pelos tecnocratas do governo ao imenso bloco de tijolos e concreto que abriga o espírito pioneiro daqueles que ali desembarcaram para colonizar o imenso sertão do oeste paulista.

Triste história, triste fim de um ciclo que, ironicamente, colaborou para o desenvolvimento de uma cidade e de toda uma imensa região. Diz o ditado que o povo que não preserva sua memória não tem como entender seu presente e muito menos planejar seu futuro.

Articulações

Sem condições financeiras de momento para arcar com despesas da ordem de R$ 3,5 milhões, o prefeito Nilson Costa (PPS) tenta resolver a situação da maneira como pode, ou seja, politicamente. Desde que as ferrovias estatais passaram para a iniciativa privada, a Rede Ferroviária Federal S/A tornou-se uma grande imobiliária.

Seu objetivo - além do desmonte do sistema provocado no passado recente - é se desfazer de todos os imóveis não operacionais, através de leilões, para arrecadar fundos que aliviem o rombo de sua dívida trabalhista. Com a estação da NOB, não será diferente. Na sede da estatal, no Rio de Janeiro, a gare e o prédio da administração da antiga Noroeste nada mais são do que um número, um frio registro burocrático que tem valor mínimo de venda já definido.

Segundo informações extra-oficiais, a única alternativa da estação ser repassada para a Prefeitura sem qualquer custo - em troca de sua ocupação e manutenção - seria a RFFSA - empresa em liqüidação - transferi-la para a União, que avalizaria seu repasse para o Município. A saída é apenas uma conjectura, que de concreto não tem nada.

Nos próximos dias, uma comissão de representantes da Ferrovia Paulista S/A (Fepasa), RFFSA e Prefeitura vai se reunir para buscar uma outra alternativa: um possível encontro de contas envolvendo as duas estatais e a Administração, através de dívidas remanescentes do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).

Enquanto a solução não chega, resta à comunidade apreciar e, ao mesmo tempo, lamentar a presença do imenso fantasma que tomou conta da mais charmosa gare do Interior paulista.

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