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Sozinho na multidão

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de dois anos em Munique, mudei-me para Frankfurt, onde deveria estudar por um ano. Uma mudança radical pois as duas cidades possuem muito pouco em comum. Enquanto Munique é uma cidade turística, Frankfurt é o centro financeiro da Alemanha. A capital da Baviera possui uma atmosfera romântica e festiva, Frankfurt, mais conhecida como a Manhattan alemã, é formada de modernos arranha-céus e construções de concreto.

Munique é a cidade do chope e da Oktoberfest, Frankfurt é a cidade do vinho, do dinheiro e dos negócios. Em Munique a criminalidade é zero, em Frankfurt o trafico de drogas, a prostituição e os assaltos fazem parte do cotidiano.

A vida em Frankfurt é mais agitada, as pessoas encontram-se menos e o isolamento é maior. Eu estava em uma das estações de Metrô não muito longe do centro de Frankfurt, quando ouvi o anúncio pelos auto-falantes: o trem teria um atraso de alguns minutos devido a um acidente na linha. Acidente na linha pode sempre significar suicídio.

Não poucas pessoas, em uma cidade como Frankfurt, sofrem de profunda solidão e acabam utilizando o metrô para sair da cidade. O raciocínio é simples, já que ninguém possui tempo para mim, pelo menos no momento de minha morte eu faço a cidade parar, por alguns minutos, por minha causa.

O homem é por natureza um ser social, ou seja, um ser que não consegue viver sem relação, sem relacionamento. Se por algum motivo o ser humano deixa de viver em relação consigo mesmo, com os outros e com o mundo, ele adoece.

Isso chama-se solidão. Solidão é a sensação profunda de estar sozinho, o que no fundo significa a incapacidade de relacionar-se. Infelizmente costuma-se confundir solidão com o isolamento físico, o estar só, o que é um grande erro.

O isolamento físico pode ser conseqüência da solidão, mas esta é muito mais profunda do que o estar só. A solidão é basicamente um estado de espírito, uma postura diante da vida.

Uma pessoa que objetivamente está cercada de amigos e conhecidos, pode sentir-se terrivelmente sozinha. Há, por exemplo, a conhecida solidão a dois, situação de muitos casais que não mais relacionam-se e não encontram mais sentido para um diálogo.

A solidão é também independente do temperamento da pessoa. Existem pessoas extrovertidas e aparentemente muito comunicativas, que possuem uma vida social ativa, mas que no fundo são extremamente solitárias. O que caracteriza, na verdade, a solidão é o fechamento da pessoa para relacionamentos.

O oposto da solidão é a verdadeira liberdade de abertura para o outro, ou seja, o ser capaz de dividir com o outro e ao mesmo tempo ser receptivo para receber do outro.

Quem sofre de solidão, é incapaz de revelar-se a alguém, ou até mesmo a si próprio. Quem possui uma abertura para comunicação dificilmente sentirá solidão.

Para isso, afirma o filósofo Habermas, é necessário ter uma competência comunicativa, ou seja, a capacidade de viver a comunicação não simplesmente como diálogo ou troca de idéias, mas acima de tudo, como partilha de vida, como disponibilidade de abrir-se à outra pessoa e ser também receptivo à ela.

Esta abertura deve ser vivida em três níveis: em relação a mim mesmo, ao outro e ao mundo, ou seja, à sociedade da qual pertenço. O solitário vive não somente distante (espiritualmente) dos outros e de sua sociedade, mas também de si próprio.

Aqui, o isolamento físico é muitas vezes uma cura para a solidão, pois o estar sozinho pode ser um momento de profundo de relacionamento consigo mesmo, ou seja, um momento de intensa comunicação.

Há muitos solitários que fogem do isolamento e se escondem, em sua solidão, por detrás de um cotidiano repleto de afazeres e de um final de semana com mil atividades.

Um das causas da solidão é o medo. Medo de confrontar-se com sua natureza humana, que não é tão bonita como se deseja, medo de comprometer-se com o outro através de um relacionamento verdadeiro, medo de transformar a sua vida envolvendo-se com os problemas de sua sociedade.

O mais triste na solidão é o que constatou Vinícius de Morais: quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada não, ou seja, o solitário perde a chance de viver. Quem abre-se para um relacionamento consigo mesmo, com os outros e com o mundo, vai provavelmente ter sofrimentos e conflitos, mas também alegria e prazer.

Em outras palavras, quem tem coragem de libertar-se da solidão, vai com certeza conhecer o novo, o diferente, o que aparentemente é estranho, enfim, vai realmente viver.

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei (Clarice Lispector)

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

(*)Especial para o JC Cultura

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