A escola de maior torcida em Bauru faz desfile mais aplaudido do Sambódromo
Aos primeiros acordes do cavaco, soados da concentração, o público do Sambódromo já respondia com entusiasmados aplausos. Era a Cartola, que nos próximos 65 minutos cravados daria uma aula de Carnaval.
Saem os fogos (pela primeira vez no Sambódromo este ano) e a escola entra na avenida para consagrar seu belíssimo desfile, tecnicamente perfeito, para o presidente da agremiação, Pasqual Storniolo.
Esperar a melhor apresentação deste Carnaval vinda da Cartola era chover no molhado para muitos. A mais estruturada das escolas de Bauru, no entanto, não nivelou por baixo e fez o que tinha de fazer: levar espetáculo para o público, pagante até ontem - pelo menos para seu desfile, os justos R$ 3,00 (valia até mais).
Entrou no horário, às 0h50, em meio ao cheiro de pólvora provocado pelos fogos, que não chegou a incomodar, pelo contrário, deu um start no público, relativamente frio até então. Foi a primeira lição da noite.
A segunda já viria na seqüência, com a comissão de frente. Ao invés do preto de roxo, que marcaram a cara da escola no ano passado, este ano a Cartola entrou colorida, em laranja, azul, verde e amarelo.
Coreografada, a comissão vestida de índios guerreiros provocava um belo efeito visual, dançando em roda e fazendo contrastar as cores berrantes da frente com o azul escuro das costas.
Outra lição, a distribuição da letra do samba-enredo para o público, que gostou de cantar junto com a escola. Mais uma vez, a Cartola contornou um problema com maestria.
O samba original, composto por Menezes e Naldo do Cavaco, foi substituído de última hora, devido a problemas envolvendo direitos autorais. Mesmo assim, Maurinho dos Santos acertou na melodia e, segundo consta, em três dias o samba já era cantado nos ensaios.
Na avenida, cumpriu o papel e contou bem o enredo proposto pela Cartola, A Saga Fantástica da Criação de uma Nação.
Nas alegorias, fantasias e carros alegóricos, o carnavalesco José Horácio foi muito feliz, dividindo a escola basicamente em quatro partes, referindo-se às cores da Bandeira Nacional, verde, amarelo, azul e branco.
Inteligentemente, José Horácio concebeu fantasias e carros monocromáticos, fugindo da salada de cores e surtindo efeito bastante original.
Já no primeiro carro, surpresas: fumaça e luz estroboscópica, resultado positivo. Seguiram-se as alas verdes, das águias, da terra brasileira, das folhas e vegetações.
Depois, as amarelas, puxadas pelo Carro da Esperança, com esculturas e belas destaques mulheres (de verdade!). Aliás, esse foi um detalhe crucial que diferenciou a escola das demais: muitas mulheres bonitas em destaque - talvez os homens travestidos ou drag queens já tenham se tornado tão comuns no Carnaval de Bauru, que ver uma bela mulher num carro alegórico, estranhamente (ou não), acaba enchendo os olhos e chamando mais a atenção.
O casal mestre-sala e porta-bandeira, Claudinei e Rosimeire, conquistou a simpatia do público, assim como as 33 baianas da escola, todas de amarelo.
A bateria, comandada por Cartolinha e vestida de araras-azuis, foi eficiente, economizando nas paradinhas. Outra vez, muitas mulheres fizeram parte da ala.
Ainda na parte azul do desfile, um dos carros mais bonitos, representando as águas, com peixes e golfinhos grandes e imponentes.
Para passar à última parte, a branca, uma solução também muito inteligente e sutil, a ala Chuva de Estrelas apresentou fantasias em azul e prata.
Fechando, logo após os anjos, lembrando da busca pela paz, o carro da apoteose, muito bem acabado e construído.
Passaram-se os 750 integrantes, dentro do tempo previsto. De uma aula assim, nenhum aluno pode faltar.
Cartola, sentido!
Todos a postos. Cada um no seu lugar, nada fora, pequenos ajustes corriqueiros. Oficiais observam, apenas. Não querem interferir.
Passa, às pressas, o general Madureira: Ai, meu Deus! Onde estão as pessoas daqui?. Você tem horas aí?, me pergunta.
Não tinha, nem aqui, nem ali. Poucos usam relógio. A única máquina naquela hora se chamava Cartola.
Testando fumaça, confere! Testando luzes, confere! Fantasias, ok! Mulheres, mais ainda. Alguém passou mal, tudo bem, ninguém é de ferro.
Acionar bateria! Skidum, skidum, skidum... Os motores estão ligados. O avião vai alçar seu vôo. Saem fogos, brilho e cheiro de pólvora no ar e espetáculo no chão. Essa era a Cartola, deixando a rigidez - necessária - da concentração. A partir dali, iria ganhar vidas na passarela. Passou, a alma ficou.
Para presidente, desfile foi tecnicamente perfeito
Texto: Daniela Bochembuzo
A Acadêmicos da Cartola, a mais aplaudida das escolas a desfilar no Sambódromo anteontem, fez um desfile perfeito, do ponto de vista técnico. A avaliação é do presidente da agremiação, Pasqual Storniolo.
Fizemos um desfile tecnicamente perfeito, desde a comissão de frente até o último carro. Estamos muito contentes pelo desfile, pelo público que confiou na Cartola e compareceu ao Sambódromo, declarou Pasqual Storniolo.
De acordo com o presidente, a escola pode melhorar alguns detalhes para o desfile de hoje. Ele atribui os acertos ao planejamento, iniciado meses antes do Carnaval, e antevê que a ausência de profissionalismo poderá reduzir a expectativa de vida de algumas agremiações bauruenses.
Quem não entrar no profissionalismo, tende a se acabar. Vemos escolas que querem fazer alguma coisa, mas uma pessoa só tomando conta de tudo não vira. Para fazer uma grande escola, é necessário ter uma equipe com pessoas responsáveis por atividades diferentes, orienta.
Por causa do profissionalismo, a pressão para que a Cartola apresente um desfile a cada ano melhor aumenta. Quem sente os efeitos disso são os membros da diretoria da escola, caso de Paulo Madureira.
É muito difícil você preparar uma escola do tamanho da Cartola. É muito mais difícil lidar com uma escola grande do que com uma pequena, porque isso significa mais gente, mais carros e mais alegorias, ficando sujeita a mais defeitos. Isso exige maior harmonia e comando, como a Cartola tem. Tivemos alguns defeitos, mas acredito que chegamos aos 95% a 98% de acertos, afirma Madureira.
O diretor da agremiação garante que, apesar de todos os acertos, não acredita que o título de campeã do Carnaval 2001 já esteja nas mãos da Cartola. Tem escola que apresentou um enredo dentro de uma proporção menor, mas de qualidade também. Não é porque a escola está bonita no visual, está grande e com carros alegóricos bonitos que já ganhou o Carnaval. É preciso analisar a proposta de enredo, conclui.
Em busca do público perdido
Texto:Fabiano Alcantara
Organização troca ingresso por um quilo de alimento não-perecível; Prefeitura, Lesec e Equipe 1 vão arcar com os prejuízos
Depois de uma reunião que durou cerca de quatro horas, a Prefeitura de Bauru, escolas de samba e Equipe 1 decidiram que não haverá mais cobrança de R$ 3,00 para assistir aos desfiles nas arquibancadas. Desde ontem, os ingressos passaram a ser trocados por um quilo de alimento não-perecível. O prejuízo de R$ 28 mil por dia vai ser assumido por cada uma das partes. Com isso, o esquema de segurança e infra-estrutura, ponto positivo destes desfiles, ficou mantido. Os alimentos vão ser destinados aos projetos sociais da Prefeitura.
O motivo para as mudanças é óbvio. A falta de público. No primeiro dia, 2.000 pessoas estiveram no Sambódromo. Atraídas provavelmente pelo desfile da Cartola, escola de maior torcida em Bauru, 3.000 pessoas foram à passarela do samba anteontem. O baixo público incomodou o prefeito Nilson Costa (PPS).
Algumas decisões são inevitáveis, mesmo que elas não sejam agradáveis de serem tomadas. Há uma crise no sistema e dentro de todas as escolas. Não faz sentido um investimento alto desse e não ter público, afirmou Losnak. O Carnaval de Bauru está perdendo com isso. Eu, pessoalmente, acho que as pessoas tinham que pagar. O pagamento é um reconhecimento.
Anteontem, um dos primeiros a pedir abertamente a liberação dos portões foi o carnavaleco José Horácio Gonçalves, da Cartola. Estou com o astral baixo. Nós estamos aqui por respeito e amor ao público. Fazemos Carnaval para o povo, sem ele não tem motivação, desabafou.
Na ocasião, o secretário de Cultura também mostrava abatimento. Nunca vi o Carnaval tão frio, resumia a situação. A cada meia hora, ele atendia uma ligação do prefeito ao celular. Nilson queria saber da lotação. E nada do público. Situação que pode ter sido prejudicada pela ameaça de outra pancada de chuva como a que foi registrada anteontem à tarde.
Até o desfile da Águia, nem 1.000 pessoas estavam no Sambódromo. Em uma hora, mais 2.000 chegaram, animando um pouco a noite, mas deixando no ar a impressão de que alguma coisa faltava.
Este ano foi um laboratório. No ano que vem, vamos fazer uma ampla discussão sobre o Carnaval com a sociedade, diz Losnak.
De acordo com a Equipe 1, a organização será mantida, mesmo sem a cobrança dos ingressos. A empresa vai continuar realizando o controle de bilheteria e organizando a segurança do Sambódromo.
Para obter muito mais informações sobre o Carnaval de Bauru leia outras notícias na editoria 'Carnaval'. Confira também fotos do agito dos foliões nos clubes da cidade e no Camarote Vip do Sambódromo, aqui no JCNet.