A milenar acupuntura finalmente ganha credibilidade no Ocidente
Sabe-se que ela potencializa a secreção de peptídeos (como a beta-endorfina) e a liberação de diversos neurotransmissores (como a serotonina, monoamina noradrenalina e glutamato fosfato) que são substâncias químicas responsáveis pela transformação temporária do modo de funcionamento de muitos dos circuitos neurais.
No Brasil, uma nova geração de médicos adota a acupuntura na clínica médica, já reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina. Um projeto de lei tramita no Senado para normatizar a especialidade e regular a atuação profissional. Acaba de serrealizada também a segunda prova do título de especialista em Acupuntura médica, em seis capitais de quatro regiões do País (Aracaju, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre). Na primeira realizada, em 1999, 800 médicos foram aprovados.
Efeitos neurofisiológicos
Encarada durante muito tempo como exercício de leigos, a acupuntura inspirava a desconfiança e o descrédito na Medicina ocidental. Era conhecida sobretudo como complemento no tratamento da dor e de problemas ortopédicos. Mas essa fase aventuresca começa a se diluir, como mostrou o 5.º Congresso de Acupuntura da Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura (SMBA) e 3.º Congresso da Federação Latino-Americana Médica de Acupuntura (Flasma) realizado recentemente em São Paulo.
Pesquisadores nacionais e internacionais apresentaram trabalhos voltados para os efeitos neurofisiológicos da acupuntura e a extensão de seu mecanismo de ação sobre diversas patologias.
A proposta é um sistema de compartilhamento com a Medicina ocidental, para que possa haver a mútua colaboração no tratamento de diferentes doenças - como a artrite reumatóide, asma, neuropatia diabética, seqüelas de acidente vascular cerebral (AVC) -, distúrbios do humor (como depressões leves e moderadas), náuseas e vômitos pós-operatórios e mal-estar provocado por quimioterapia.
No congresso, foram apresentadas também evidências da eficácia da acupuntura na regulação cardiovascular do miocárdio, no controle da enxaqueca e das enfermidades dermatológicas, e como terapêutica coadjuvante no tratamento de dependentes de drogas. Deixamos essa fase de aventura, na qual se extrapolava por teorias um tanto filosóficas e por divagações poéticas. Sem contar os riscos da manipulação de leigos, que não podem realizar diagnósticos, prescrever exames e remédios, diz o dr. Chen Sin Yuan, presidente do congresso e da Sociedade Médica de Acupuntura do Estado de São Paulo, clínico do Centro de Dor do Hospital das Clínicas e do Centro de Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP.
A acupuntura não tem nada de misticismo, como muitos apregoam.
E não fazemos milagres para todo tipo de patologia. Ao contrário: a forma ideal de se tratar as patologias é realizar inicialmente a abordagem pela Medicina ocidental. Com o diagnóstico, pode-se aproveitar a contribuição milenar da acupuntura para fazer um tratamento menos invasivo e aproveitar o próprio potencial do organismo do paciente. A acupuntura, como ele diz, é apenas uma metodologia terapêutica.
Complementação terapêutica
Segundo o médico, a acupuntura tem uma função muito importante de complementação das terapêuticas tradicionais alopáticas. No caso do AVC, o paciente tem paralisia dos membros como conseqüência de um distúrbio de circulação encefálica. A acupuntura promove, então, estímulos cerebrais, possibilitando a reativação das funções locomotoras. Nossa preocupação é a integração: de um lado, da moderna e científica Medicina ocidental e, de outro, da tradicional Medicina chinesa, da qual a acupuntura se apresenta como seu mais expressivo e difundido método terapêutico, explica Sin Yuan.
A acupuntura pode ajudar também pacientes com neuropatia diabética. Ao longo do tempo, os diabéticos do tipo 1 passam a sofrer com a dor, porque a glicose afeta o funcionamento das terminações nervosas. Eles têm queimações nas extremidades das mãos e dos pés. A abordagem ocidental não tem sucesso no tratamento medicamentoso em insulino-dependentes, e não há cirurgia. Por isso, a acupuntura é uma possibilidade de reabilitação, diz Yuan. Mais um dos muitos exemplos que justificam a Acupuntura como potencializadora da terapêutica ocidental.
Ele diz também, como foi mostrado no congresso, que 85% do efeito da acupuntura tem evidências encontradas pela ciência. Uma pequena parcela da fisiologia do funcionamento da acupuntura ainda está para ser investigada. Como muitas coisas, aliás, da Medicina ocidental, que também tem seus limites. A acupuntura tem os seus, mas ela afirma que esses limites podem ser mais elásticos, diz o médico.
A estratégia para disseminação da acupuntura no Brasil encontra-se agora disposta em três frentes. A primeira é vencer os obstáculos para a sua entrada nos cursos regulares de graduação em Medicina. Outra frente é a intensificação das gestões junto ao setor de Medicina de grupo e no atendimento público. No primeiro caso, de acordo com o médico, o trabalho é estimular a instalação de diversos pontos de ambulatórios (como o incremento da prática da acupuntura no Sistema Único de Saúde-SUS), para que a população possa ter um atendimento de forma adequada.
No segundo caso, a nossa tentativa está em esclarecer o porquê da importância de a acupuntura estar no rol dos procedimentos médicos. A empresa pode achar que será mais um encargo. Mas, se fizermos os cálculos, a longo prazo, um paciente que tenha tratado hérnia de disco com acupuntura não precisará realizar cirurgia, nem precisará ser internado. A empresa, portanto, terá seu custo diminuído, exemplifica o médico.
A terceira frente é o projeto de lei 6795, hoje na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que legislará sobre a prática da acupuntura no País. Recentemente, foi aprovado um substitutivo do senador Geraldo Althoff (PFL-SC), que preconiza a prática da acupuntura para médicos, odontólogos e médicos veterinários, e reconhece, também, o direito adquirido de outros profissionais que tenham uma prática pregressa reconhecida de três anos, mediante fiscalização do Ministério da Saúde.
Acredito que, em termos de saúde, não deveria haver o expediente do direito adquirido, porque isso é muito perigoso. Mas, de qualquer forma, com esse projeto queremos fechar as escolas profissionais que não são médicas. Infelizmente, a maioria desses profissionais não-médicos, que trabalham há dez ou 20 anos, é de origem chinesa, e conta com a colaboração de médicos no trabalho de instrução médica. Estamos tentando acionar o Conselho Regional de Medicina para que impedir que esses médicos continuem assessorando essas escolas e para que não mais seja permitido que eles ensinem aos leigos, defende Yuan.