Geral

Amor pueril pela Bandeira Brasileira

(*) Cel. Iracy Vieira Catalano
| Tempo de leitura: 3 min

Em um recanto do interior do Brasil, dois irmãos, garotos pobres, mas com sentimentos patrióticos, e de elevado espírito cívico para a idade, assimilado na vivência dos bancos escolares e de uma família paupérrima, mas de uma reserva patriótica extremada, decidiram aprestar no quintal de sua indigente habitação com cercadura de madeiras, um mastro com a Bandeira do Brasil, como um ornamento cívico em seu lar, com sua sombra protetora, atestando contritamente as santas emoções do amor de ambos à Pátria.

Recolheram de um pequeno baú abandonado, em um canto do casebre, mais parecendo um tugúrio, mas nobre a altivo, de chão batido, mas limpo e asseado, alguns retalhos de tecido verde já desvanecido pelo tempo e uso; recortaram-no com uma tesoura velha sem corte, e improvisaram um retângulo, sem nenhuma proporção, pois desconheciam a dimensão exata. Na mente infantil de cada um, concebiam uma majestosa bandeira verde e amarela com uma esfera azul contendo um aglomerado de estrelas fulgentes que se entrelaçavam num implexo feliz de paz e alegria. Era a Bandeira do Brasil, que eles idolatravam com uma dedicação indescritível, na ternura do seu infindo amor. Não tinham a seu alcance nenhum modelo de abrangência de sua querida bandeira, mas fundamentado nos desenhos feitos na escola, criaram uma imagem dúlcida do que iriam conceber. O amor e a inclinação ao símbolo máximo da Pátria iriam sobrelevar e o desígnio seria consolidado. Encontraram no baú abandonado, um pano amarelo desvanecido pelo tempo, quase branco, e com apoucados orifícios localizados, mas era o que tinham, e portanto retalharam um losango. Com agulha e linha o inseriram no retângulo verde, amassado e amolgado, mas que sabiam, representava as nossas exuberantes florestas. Procuraram um tecido para a esfera, mas não encontraram nenhum pano dessa coloração no baú. Não desistiram. Com os corações latejando pela aspiração patriótica e sublime anseio, cruzaram até o quintal, onde se entendia um caixote encanecido, com andrajos velhos já atassalhados e encontraram uma velha calça rasgada de seu pai, na cor azul, uniforme de gari da prefeitura local. Recortaram então uma esfera e a implantaram no losango amarelecido, mas que naquele momento representava as desmesuradas riquezas do Brasil.

Pronto! Disseram juntos, eis nossa bandeira!... Mas faltava a legenda Ordem e Progresso, para ultimar a nobre e altiva empreitada dos dois pequenos irmãos. Vibrantes, cheios de candura e com semblantes preenchidos de emoção e alacridade feérica, numa atadura branca deparada ao acaso, escreveram com um carvão preto, a expressão mágica, criada por Benjamin Constant e a adornaram na esfera azul, onde colocaram estrelas de papel. Faltava ainda o mastro. Encontraram um aprumado e túrgido galho de árvore derribado no chão e, incontinente, ataram as duas pontas de sua querida bandeira, de maneira inadequada, mas era o melhor que poderiam ter feito. Encravaram o mastro no solo do quintal, extasiados e elevados.

Passaram então a admirá-la com devoção infantil, sem refolharem seus sublimes e pueris sentimentos cívicos, ao notarem o panejamento de suas dobras, na aragem amável e acolhedora, que imponentemente homenageava aquela bandeira, mal dimensionada, desvanecida, e de trapos velhos, mas confeccionada com muita ternura, devotamento, orgulho e carinho, estimulado pelo anseio patriótico de duas crianças cheias de humildade, contida interiormente em seus pequenos corações, mas que se agigantaram dentro de um pensamento nobre, flamejado pelo claror feérico do amor à Pátria. Certamente, terão eles, no amadurecimento natural e tranqüilo de suas vidas, um pequeno jardim interior cheio de harmonia, candura, afetuosidade e dedicação, e colherão as flores benignas e e suaves no amanhã, contagiando e envolvendo a todos com seus predicados de amor e patriotismo, espargindo aveludadas bênçãos de luz de serenidade e de esperança.

(*) Cel. Iracy Vieira Catalano - Lions Clube de Bauru

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