Hombridade e coerência são virtudes mais lembradas sobre figura turrona que marcou personalidade do governador
A morte do governador Mário Covas tornou uníssono o discurso de políticos bauruenses a respeito de seu legado político. Correligionários, ex-companheiros de partido e adversários parecem ter a mesma visão sobre a trajetória política do chefe de Estado falecido na madrugada de ontem, vítima de um câncer terminal. A hombridade e, sobretudo, a coerência são as virtudes mais lembradas nos comentários a respeito da figura turrona que sempre marcou a personalidade do governador.
Vários nomes exponenciais da política local estiveram juntos com Covas desde sua brilhante militância no extinto MDB até sua investida na formação do PSDB, partido que mais cresceu a partir da década de 80. Apesar de sua última visita a Bauru ter ocorrido há mais de seis anos, Covas sempre foi bem quisto na cidade. Nas eleições presidenciais de 1989, por exemplo, numa das raras ocorrências em todo o País, ele venceu o primeiro turno na cidade, que posteriormente elegeu, também no âmbito municipal, Luiz Inácio Lula da Silva com o seu apoio. Ontem, com pesar, alguns políticos foram ouvidos pelo JC e manifestaram-se sobre a perda de um dos poucos expoentes políticos brasileiros reverenciado pela integridade.
Apesar da grande perda, a classe política não teme pelo futuro do Estado e no PSDB, pois depositam confiança absoluta em Geraldo Alckmin, que desde a licença de Covas, vinha exercendo a função de governador. A credibilidade de Alckmin estaria estritamente vinculada ao aprendizado vivenciado ao lado de Covas.
*Tuga Angerami, amigo desde 1980 e ex-companheiro de partido.
Estou entristecido, porque sempre tive uma relação afetiva e ideológica muito boa com o Covas, apesar de discordarmos politicamente algumas vezes. Eu era uma das poucas pessoas do grupo político que discordava dele e nossas discussões muitas vezes acabaram no grito. Ele era espanhol e eu italiano; não fugíamos das discussões. Uma das últimas grandes discussões que protagonizamos foi no Salão Verde do Congresso, eu como deputado e ele como senador. O bate-boca foi muito feio, mas, quando terminou, ele virou para mim e disse: vamos almoçar, cabloco? Eu tinha uma admiração enorme pelo Covas, principalmente por sua coragem e coerência, que o acompanharam sempre, até mesmo quando ele estava errado. Algumas passagens me marcaram muito, como na minha primeira campanha para deputado federal, em 1990. Ele era candidato a governador e estávamos numa carreata em Salto Grande, na barranca do Paranapanema. Eu me lembro que era uma noite gelada, nós em cima de uma carroceria, sem ter ninguém na rua para quem acenar. Conversamos muito e ele me disse: Você vai ser eleito, mas te digo para você jamais se deixar levar pelas facilidades que um mandato proporciona, nem mesmo furar uma fila de banco. Realmente eu fui eleito e percebi que aquele conselho tinha tudo a ver. O Covas tinha um código de comportamento com regras bem cartesianas e lineares que ele seguia à risca. Uma delas, que sempre será só dele, é a que mais vale um não explicado do que um sim que nunca poderá ser cumprido. Ele, talvez, tenha sido um dos políticos que mais disse nãos aos seus eleitores. O maior legado dele é o modelo de conduta que acabou provando que é possível fazer política e ter ética ao mesmo tempo. Assistimos hoje uma guerra enojante de figuras exponenciais do mundo político brasileiro, investidos de mandato popular, onde um é presidente do Congresso sob acusações pesadas (Jáder Barbalho) e o outro é uma figura desequilibrada (Antonio Carlos Magalhães) até para um homem comum. Nesse contexto, a perda do Covas se torna ainda mais lamentável. Sobre o PSDB sem Covas, tenho a dizer que confio muito no Alckmin, que tem muito do Covas, apesar de ser mais conciliador e bom astral. O Estado está seguramente em boas mãos. O Alckmin é igualmente competente e viciado em trabalho, além de decente e politicamente habilidoso, virtudes que o colocam como um bom sucessor. Ele, por sinal, tem competência para se tornar não só o centro do comando do governo, como o centro do comando partidário, surgindo como uma figura de ponta no cenário político nacional. Ao meu ver, só é preciso que ele e o Serra (ministro da Saúde, José Serra) se entendam e construam um projeto comum. O destino do PSDB em São Paulo depende dos dois.
*Darci Gasparini, presidente de honra do PMDB e ex-companheira de Covas no extinto MDB.
Estamos perdendo uma das grandes lideranças nacionais, ainda que ultimamente ele fosse adversário político da gente. O Covas, no entanto, não deixa de ter o mérito, o caráter e a hombridade enquanto homem e político. Eu o conheci em 1968, através do Édson (Édson Gasparini, já falecido e marido de Darci). Em 1962, eu votei escondido nele para deputado, porque ele já era defensor da oposição ferrenha. O Édson trabalhava escondido para os candidatos considerados velados, tidos até como comunistas. A gente levava o nome escondido na roupa, porque a repressão já era muito grande. Em 1969, nós estávamos todos no MDB e militávamos pelas candidaturas. Trabalhei para o Covas quando ele saiu candidato a senador e foi o mais votado em toda história do Brasil, com quase 10 milhões de votos. O papel dele foi importantíssimo dentro do PMDB e no processo de democratização do País. Mesmo fora do partido e já como nosso adversário, ele continuou firme em seus propósitos, enfrentando até o presidente. Para mim, a perda dele se iguala à perda de nomes como Teotônio Vilela, Severo Gomes e Ulisses Guimarães. Isso porque ele integrava a plêiade de políticos que o Brasil precisa, mas que vem perdendo com o passar do tempo. Espero que os que aqui continuam sigam o exemplo de vida do Covas, mais um político que, infelizmente, estamos perdendo na hora errada. Talvez se ele ficasse conosco por mais uns seis anos, o Brasil teria uma história diferente.
*Tidei de Lima, amigo e ex-companheiro de partido, agraciado, quando prefeito de Bauru, com a última visita de Covas ao município.
Tínhamos um relacionamento de amizade, principalmente após o decreto de anistia, em 1979. Na época do MDB, ele era o presidente regional da executiva do partido, eu o primeiro-vice e o Fernando Henrique, o segundo-vice. Quando terminou o bipartidarismo, essa mesma executiva foi eleita para a primeira executiva regional do PMDB, responsável pela renovação do MDB no Interior. A gente esteve sempre junto, desde quando ele foi prefeito à candidato ao Senado, até que ele deixou o partido para fundar o PSDB. Mesmo assim, mantivemos nossa amizade, em que pese as diferenças de pensamento político frente ao neoliberalismo e às privatizações. Nunca deixei de respeitá-lo e de reconhecer sua importância. Particularmente, acredito que o maior legado do Covas foi sua participação na luta pela democracia. Ele, enquanto líder do PMDB, também foi uma figura importantíssima e fundamental na Constituinte. Este, certamente, foi o período mais rico politicamente para ele, seja em posicionamentos, pronunciamentos e liderança. A lembrança que tenho dele e que ficará é essa.
*Nilson Costa, prefeito de Bauru
Embora não pertencêssemos ao mesmo partido, sempre mantive um tratamento respeitoso em relação ao Governo Estadual e à pessoa do governador. Acho que apesar das divergências, ele deu grande contribuição à democracia, especialmente pela tomada de decisões. Respeito-o também porque, assim como eu, ele foi vítima do Golpe de 64. Em relação a Bauru, sinto que as divergências com os tucanos locais dificultaram uma maior aproximação com o governo, ainda que isso não tenha atrapalhado nossas ações em prol dos interesses da comunidade. Ao meu ver, o maior legado do Covas foi sua coerência, embora muitas de suas ações tenham desagradado, como o tratamento dispensado ao profissionais do magistério e a criação dos pedágios. Isso, porém, não afetou o prestígio do governador, que se manteve à frente de uma política austera, que possibilitou a retomada de investimentos. Para Bauru, isso significou a abertura de um caminho para benfeitorias. Nós, de certa forma, seguimos o modelo do Covas, na medida em que tomamos algumas atitudes que nem sempre agradam, mas que visam o bem comum da população. Acho que o Geraldo Alckmin dará conta do recado, pois é bem-intencionado, mas o ninho tucano deve se abalar um pouco, até porque o governador agora deverá impor sua própria personalidade.
*Élio Busch, coordenador regional do PSDB, amigo e fiel apoiador de Mário Covas durante 11 anos.
Nesse momento triste, em meio a centenas de companheiros, temos a plena consciência de que São Paulo e o Brasil perderam a maior esperança e liderança política de todos os tempos, assim como foi Rui Barbosa. O PSDB tem, agora, uma responsabilidade muito maior, pois recebeu como herança a ética, a moral, o respeito, a seriedade e a hombridade do Covas. O Geraldo Alckmin me disse hoje dessa grande luta que teremos daqui para frente. O que me tranqüiliza é saber que ele, agora como governador titular, estará seguindo à risca os passos do seu antecessor. Apesar da tristeza, acho que essa perda fará com que o partido cresça muito, assim como o pai que morre e os filhos que se esforçam para seguir seus passos e serem ainda melhores. Foram 11 anos de um convivência quase cotidiana que só me deu prazer e honra.