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A morte sem máscara

(*) Maria América Ferreira
| Tempo de leitura: 3 min

A máscara cai na hora da morte. Quem viu ontem, pela tv, a cobertura de todo velório do governador Mário Covas, sem dúvida, deve ter sido acometido por um sentimento de tristeza e emoção. A televisão como o principal meio de comunicação com o povo, é capaz de transformar fatos do dia-a-dia em grandes espetáculos. Fora isso, o governador do Estado morreu. Mais uma vez, é a prova de que ninguém consegue driblar a morte quando ela chega. Essa é a única hora em que a máscara cai. Não estamos nos referindo a quem morreu, mas sim, àqueles que ficam e que mesmo diante das câmeras, não resistem e choram. Homens altos, fortes, baixos, magros, gordos, com cara de machão, políticos acostumados a todo tipo de situação, não controlam as lágrimas que teimam em escorrer pelo rosto.

As pessoas do povo choram. E é esta a diferença entre as lágrimas. Pessoas que nunca conversaram com o governador, ou nunca o viram de perto, são capazes de chorar. Elas não choram só pelo Covas, mas choram por suas próprias vidas. Choram pelo sofrimento que carregam constantemente. Quantos já não enfrentaram um câncer bem de perto? Quantos já não perderam pessoas queridas? Essa é a realidade, obviamente, guardadas as devidas proporções. Covas era o governador do Estado, portanto, uma figura pública. Se foi bom administrador ou não, fica para outro plano.

Mas, o que gostaríamos de destacar é que todos os dias estamos nos deparando com a morte e, nem assim, somos capazes de mudar o comportamento em relação à vida. Você viu políticos chorando. Os mesmos políticos que na hora de decidir a vida do povo, não se importam se alguém vai ou não chorar com suas decisões. Por que não começam a pensar mais seriamente nisso e agir de forma correta? Por que não tiram a máscara durante a vida, para morrer em paz? Covas marcou a história política do País. Sempre foi considerado um homem de forte personalidade. Era chamado de briguento e turrão. Enquanto viveu, lutou por tudo que acreditava, mas também era um político.

Todos os dias morrem milhares de pessoas. Todos os dias nascem milhares de pessoas. Esta é a única certeza do mundo. Tudo que nasce, morre. Então, por que não fazer esse trajeto, do nascimento à morte, de maneira sensata? Dizem que devemos tirar os fatos positivos de todas as situações ruins que vivenciamos. Que tal começar a fazer isso agora? A morte de qualquer ser vivo é um aviso para os que ficam, que ela existe e vai pegar a todos indistintamente. Por isso, devemos levantar todos os dias e dar graças por termos acordado. Dar graças por estar continuando a nossa caminhada.

Devemos sim, chorar a morte de quem quer que seja. Mas devemos comemorar a vida. Devemos pensar positivamente. Devemos olhar ao nosso lado e, se possível, ajudar aqueles que precisam. Os políticos precisam lembrar que só têm imunidade parlamentar. Não são imunes à morte. Por isso, se quiserem fazer parte do lado bom da história, devem agir corretamente e decentemente com o povo. Eles precisam chorar, não só na hora da morte, mas, sempre que agirem com franqueza e honestidade. Chorar lava a alma, mas certamente, daqueles que choram sinceramente, assim, como fazem na hora da morte. Quanto a Mário Covas e todos que morreram ontem, vão morrer hoje e amanhã, que descansem em Paz.

(*) Maria América Ferreira é jornalista

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