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Corpo em evidência

Roberto Dutra
| Tempo de leitura: 5 min

Conciliar adequada acessibilidade aos comandos e botões, boa visibilidade dos instrumentos, nível de conforto satisfatório e posição de dirigir segura. Esse é o grande desafio dos engenheiros e estilistas no projeto ergonômico de um automóvel.

Cada vez mais exigentes, os consumidores de todo o mundo já não aceitam carros desconfortáveis e cuja condução seja complicada ou exija muito esforço. Como se não bastasse, os técnicos também se desdobram na busca por soluções adequadas a cada mercado. Por exemplo, no Brasil a nova geração de consumidores está mais alta em 7 cm, em média. Mas nos Estados Unidos, os gordinhos compradores estão mais largos em 5 cm, em média.

Engenheiros e projetistas concordam que o design do automóvel sempre foi, disparado, o aspecto que mais recebeu atenção. Afinal, o que desperta o interesse do comprador, pelo menos em primeira instância, é o apelo visual do automóvel. Mas privilegiar o design em detrimento do conforto já não é mais uma regra absoluta. Pelo contrário, está se tornando uma exceção e o que impera cada vez mais é a fórmula de projetar os automóveis de dentro para fora. O objetivo passou a ser a valorização do espaço interno e a acomodação confortável e segura dos ocupantes, que ganham mais importância que o desenho do veículo, pondera o diretor do estúdio italiano de design Bertone, Gean Beppe Panico.

Esse princípio é relativamente simples. Tudo começa no chamado Ponto H, exatamente onde o motorista estará sentado. Esse ponto será a referência para a projeção de todo o habitáculo. Principalmente a localização dos comandos, instrumentos e botões, que deverão estar instalados a uma distância que permita acesso fácil, rápido, com pouco esforço e sem causar desvios de atenção da direção. Qualquer acionamento de comando interno tende a desviar a atenção do motorista. O desafio é situar os comandos de forma que isso não aconteça, resume o engenheiro e coordenador de formação técnica da Citroën, Alfredo Trindade. Alguns resultados dessa busca incessante estão presentes nos automóveis atuais: regulagem de altura e profundidade para volante e banco, cintos de segurança também reguláveis em altura, botões grandes e centralizados, bancos anatômicos, mostradores voltados para o motorista, comandos no volante, coluna de direção ou apoio de braço do motorista são os exemplos mais comuns.

Nada disso adianta, porém, se o motorista não colabora e não adota uma correta postura ao volante. Engenheiros, médicos e especialistas de cursos de direção apontam como posição ideal algo próximo da famosa velhinha ao volante. O encosto deve formar um ângulo de cerca de 100 graus com o assento. Em relação aos pedais, o banco deve estar a uma distância que permita ao motorista acioná-los até o fundo sem ter que esticar a perna. O motorista ainda deve estar com os braços formando ângulo de 90 a 100 graus em relação aos ante-braços e alto se possível - a cabeça a cerca de 5 cm do teto do carro. As mãos devem ser apoiadas no volante em posição de 9 h 15 min, com os polegares na altura dos raios do volante. Desta forma, o motorista tem força de sobra para acionar os pedais, segura o volante com firmeza, não fica solto no banco e as costas estão sempre apoiadas, aponta o assessor técnico da Fiar, Carlos Henrique Ferreira.

Toda essa evolução no estudo e aplicação de soluções em ergonomia automotiva resulta em automóveis mais confortáveis, fáceis de dirigir e seguros. Mas ainda há alguns aspectos que podem melhorar. Para Dirceu Rodrigues, diretor de medicina ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, Abramet, os painéis ainda são pouco acessíveis, os câmbios são cansativos e os pedais exigem esforço demasiado e repetitivo. O que se pretende são veículos que minimizem o trabalho do indivíduo. O ideal seriam dois pedais, direção hidráulica e painéis mais próximos em todos os modelos, teoriza.

Males do volante

Adotar uma correta postura ao volante não só traz benefícios à condução propriamente dita - que torna-se mais segura -, como também evita o que os médicos chamam de patologias ergonômicas. O nome pomposo faz alusão a toda sorte de problemas de saúde resultantes de postura errada, como lombalgias e cervicalgias - as populares dores lombares e torcicolos -, e por esforço repetitivo, que atingem braços e pernas, ocasionando inflamações de tendões e músculos. Segundo Dirceu Rodrigues, diretor de medicina ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, Abramet, automóveis e usuários dividem a responsabilidade por essas patologias crônicas. A confecção da maioria dos veículos propicia a irregularidade da postura em busca de conforto, diagnostica. O resultado são movimentos contínuos que, apesar de aparentemente comuns e necessários, acabam trazendo problemas.

Por exemplo, esticar o pescoço para buscar um melhor ângulo dos espelhos retrovisores, chegar o banco para trás para esticar as pernas, não apoiar o pé esquerdo quando não se está acionando a embreagem e até mesmo deitar o encosto para ter a sensação de conforto e relaxamento. Colocado em posição inadequada, o banco acaba exigindo um esforço extra do corpo ou de parte dele, que acaba dando origem a uma lesão, afirma Rodrigues. Já o problema do esforço repetitivo está exatamente na constante troca de marchas e no acionamento frequente do pedal de embreagem. O tratamento desses problemas depende do caso, mas a cura nunca é imediata. A recuperação pode exigir desde simples sessões de alongamento por poucos meses até raras, mas possíveis, cirurgias, afirma o fisioterapeuta Orlando Alves Junior, do Rio de Janeiro.

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