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Perdoar: ato exigente de liberdade

Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de um dia inteiro debruçado sobre os livros e o computador, saí à noite e deparei-me com um céu repleto de estrelas. Foi um momento mágico de verdadeira beleza e liberdade. A luz das estrelas é um lindo sinal de sua existência.

Pelo menos uma prova de que elas uma vez existiram, pois muitas estrelas que podemos ver no céu já apagaram-se há muito tempo. A luz de galáxias longínquas que podemos hoje contemplar, necessitaram de milhões de anos para chegar até nós.

Durante o longo percurso da luz, muitas de suas estrelas acabam perdendo sua existência. A conseqüência é simples, ao olharmos para o céu, estamos sempre vendo um estágio não mais atual, um documento do passado, um retrato de constelações já extintas.

Portanto, um olhar para o céu é sempre um olhar para o passado. As muitas constelações de nosso céu são, na verdade, luzes do passado que continuam vivas no presente. Sem dúvida, existem marcas do nosso passado que não são tão lindas como as estrelas do céu, mas que, como elas, continuam a iluminar o nosso presente.

Um exemplo é a culpa por termos cometido algum erro, como foi refletido no domingo passado. Mas quando nos referimos à culpa, obrigatoriamente devemos nos lembrar também da vítima, aquele que sofreu o dano de nossos atos. Entre o culpado e a vítima existe uma relação interpessoal bloqueada pelo passado ainda vivo. Quando alguém reconhece sua culpa, inicia-se para ele uma situação angustiante.

O fim desta depende de uma única pessoa: da vítima. Esta pode deixar o portador da culpa com sua angústia, ou libertá-lo de seu sofrimento com o perdão. Aqui somente a vítima possui a última palavra.

Ela sofreu o dano, passou pela experiência da dor, foi ofendida em seu orgulho ou dignidade e não pode evitar as lembranças desagradáveis do feito causado pelo culpado. O perdão, portanto, é um ato exclusivo da vítima.

Perdão não significa correção. Ele é, na verdade, uma ajuda para que a pessoa que vive com a culpa, possa ter uma chance de realmente recomeçar. O perdão, portanto, é um ato essencialmente interpessoal.

Enquanto o reconhecimento da culpa é um processo interior do culpado, o perdão desenvolve-se no nível da interpersonalidade. Com muita sabedoria, Hanna Arendt define o perdão como a base da liberdade humana.

Ele é uma necessidade na relação humana, pois torna possível a vida social. Somente através do mútuo deixar viver, podem as pessoas adquirir a liberdade necessária para uma transformação em suas vidas e serem mais felizes.

Sem dúvida, perdoar exige da vítima um esforço duplo: em primeiro lugar, é necessário a superação de seus sentimentos e do possível ódio; em segundo lugar é exigido da vítima a tentativa de reconhecer a humanidade do culpado.

Através do perdão o culpado é reconhecido como humano, ou seja, a vítima reconhece o culpado como um semelhante. Isso não significa confundir perdão com esquecimento. Perdão não significa colocar uma pedra em cima do passado e apagar o acontecido da memória.

O perdão refere-se sempre e somente à pessoa do culpado e nunca ao ato cometido. Quem é libertado é a pessoa que cometeu o erro, o seu feito, porém, permanece condenável e não deve ser esquecido. Pelo contrário, o próprio ato de perdão significa a lembrança do feito.

O reconhecimento da culpa e principalmente o perdão abrem a perspectiva para a reconciliação. Como perdão não é sinônimo de esquecimento, a reconciliação também não significa uma harmonia superficial e hipócrita. A reconciliação surge uma convicção realista de que a vida não é perfeita e a aceitação do outro como ele é ou deseja ser. Tanto do culpado como da vítima, a reconciliação exige uma verdadeira Metanóia.

Os dois necessitam de uma transformação de si próprios e de sua relação com o mundo. Para a reconciliação não é suficiente um simples arrependimento interior. Ela só é possível quando os sentimentos tornam-se concretos e palpáveis, ou seja, quando o culpado expressa claramente seu arrependimento e a vítima a sua vontade de vida nova.

Com certeza, o primeiro passo para a superação das dores do passado é o diálogo. A falta deste gera somente aumento do rancor e dos preconceitos. O silêncio é um texto fácil de ser lido errado(A. Attanasio).

Finalmente, reconciliação não quer dizer ausência de conflitos no relacionamento, mais sim, uma postura nova diante da vida, o fato de que as duas partes aprenderam com o passado e estão dispostas a viver o futuro com franqueza e maior respeito mútuo. O céu continuará, de qualquer forma, coberto de estrelas, mas poderá tornar-se um vasto espaço de liberdade.

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

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