Nos últimos meses Mário Covas fazia lembrar aquele marechal espanhol personagem de Eça de Queiroz que sofreu um atentado à bomba em Barcelona. Saindo dos escombros, uniforme em frangalhos, batia vigorosamente na ombreira para livrar-se do pó ao mesmo tempo em que bronqueava com os curiosos aglomerados para ver os estragos: no es nada, no es nada. Martirizado pela doença, com dificuldades de andar e de falar, Covas comoveu a todos com a sua teimosia em continuar à frente do governo paulista, como se nada tivesse acontecido. Também tive o meu dia de Covas. Era um domingo de fevereiro e o então senador iniciava sua campanha à Presidência da República. Bauru, reduto de um PSDB recém-fundado, foi uma das primeiras cidades a ser visitada. Terminados os cumprimentos e entrevistas de praxe no Aeroporto, Covas entrou no primeiro carro que viu para seguir em caravana. Justamente no meu velho Monza.
Expliquei que era uma honra, mas havia carros melhores e mais confortáveis à disposição da comitiva. Respondeu que só trocaria de condução se a sua presença fosse inconveniente. E lá fui eu para a casa do bispo, com todo cuidado, carregando a bordo um senador da República eleito com 7 milhões e 700 mil votos.
D. Padim, bispo de Bauru, era visita obrigatória depois da abertura política. Antes, poucos se atreviam a ter contato com um dos membros mais progressistas da Igreja, conhecido na América Latina pela sua opção intransigente pelos pobres. No caminho respondi a Covas as indagações sobre problemas de Bauru. Os mesmos que ainda hoje nos afligem. Tempestades, inundações, erosões, vítimas. Covas contou dos seus tormentos quando prefeito de São Paulo. Lamentou não ter concluído o seu projeto de aprofundar em seis metros o leito rochoso do Rio Tietê, única forma de escoar as torrentes cada vez mais impetuosas por causa da exploração imobiliária. Acabaram com as várzeas onde o rio se espraiava naturalmente na estação das chuvas, e agora sucessivos governos eram obrigados a gastar bilhões para tentar contê-lo na sua caixa.
O papo com d. Padim foi longo, com tantos assuntos em pauta. Nova Constituição, fim da ditadura e primeira eleição direta à Presidência, depois de mais de vinte anos. Aos visitantes foi oferecido apenas um cálice de vinho do padre - literalmente - e só. Na hora do bota-fora, todos prontos para mais uma etapa do programa, Covas me elegeu novamente como seu motorista. Quero comer pastel - determinou ao mesmo tempo em que desabava no banco da frente. Adverti-o sobre o atraso. Não ficava bem abandonar a comitiva, mas o homem insistiu no pastel. Depois do infarto e de duas pontes de safena e uma mamária, preferia coisas leves à carne de churrascaria.
Em pleno domingo, passado do meio-dia, lembrei-me da Feira. Pedi desculpas pela modéstia do lugar. Covas, em meu consolo, confidenciou que se fosse condenado à morte, pediria para satisfação do seu último desejo pastel-de-feira quentinho e um copo dágua. Depois de dois pastéis cada e uma garrafa de água mineral, o senador-candidato conversou animado com os feirantes, apertou a mão de muita gente e deu uma aula sobre a sociologia da batata levada dos Andes pelos espanhóis para matar a fome da Europa. Explicou diferenças entre as variedades baroa, inglesa e holandesa, sob o olhar espantado do japonês da banca.
Na volta, provoquei-o com perguntas sobre a estratégia do seu discurso para enfrentar outros 19 candidatos na campanha à Presidência. O Brasil precisa de um banho de caráter para resolver seus problemas, e não de discurso vazio - respondeu meio bravo. Ao contrário da esquerda, Covas pregava um choque de capitalismo. Pretendia chamar e incentivar à participação os empresários, mas sujeitando-os aos riscos do negócio e não somente à privatização dos lucros com a socialização dos prejuízos.
Reintegrado à comitiva, José Serra logo se acalmou quando contei a história do pastel. Conhecia de sobra a teimosia do espanhol e suas obsessões. Votei Covas. Deu Collor. Perdemos mais uma chance de fazer este País avançar.
(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC