Um número crescente de pessoas tem optado pela economia informal para sobreviver. O trabalho com artesanato atrai quem possui criatividade e habilidades manuais para transformar pedaços de arame, elásticos, tecidos, couro e outros materiais em pulseiras, brincos, gargantilhas, enfeites e outros objetos. Para alguns, o artesanato serve como complementação da renda principal. Mas, para muitas pessoas, tem sido a única fonte de renda que chega a sustentar uma família inteira.
Maria, 51 anos, e Teresa, 25 anos (nomes fictícios, a pedido das entrevistadas), mãe e filha, ficaram desempregadas e decidiram, há sete meses, montar uma barraca na área central de Bauru para vender peças artesanais. Elas não quiseram revelar o rendimento mensal que possuem com esse trabalho, mas, afirmam que é uma renda "muito boa" e que tem sustentado mãe e filha.
Porém, o dia-a-dia de trabalho nas barracas também exige muita atenção, o tempo todo. Segundo Maria, ela já teve muitas peças furtadas por pessoas que aproveitam o movimento para simular que estão vendo as mercadorias e acabam levando alguma peça. "Hoje, tentaram arrancar um brinco do mostruário e o fecho quebrou. Muitas peças já foram furtadas. Temos que ficar atentas o tempo todo e trabalhar com celular para chamar a Polícia se houver algum problema", diz.
O comerciante Samir Ibrahim montou uma barraca, em uma praça da área central da cidade, há quatro anos. Desde então, esse tem sido o seu único trabalho, que garante um rendimento aproximado de R$ 600,00 por mês. "Dá para viver", diz Ibrahim, com toda a sobriedade dos seus 58 anos.
Com a venda de suas peças artesanais, todas feitas por ele com muita dedicação e criatividade, Ibrahim sustenta as três pessoas que vivem em sua casa, além dele - sua esposa, uma filha, que tem uma renda pequena suficiente apenas para gastos pessoais, e um neto. Com o dinheiro do seu trabalho, Ibrahim conta, com orgulho, que ele paga os estudos do neto. "Eu pago a mensalidade da escola e todo o material escolar do meu neto", conta.
Antes de montar a barraca de produtos artesanais, ele já trabalhava nessa praça há 29 anos, como vendedor de pipocas. Quando o seu faturamento começou a cair muito, não pensou duas vezes para se dedicar ao aprendizado de trabalhos artesanais. Obteve sucesso e, atualmente, sobrevive e sustenta a família com isso.
Jovens são bons clientes
Roseli Aparecida de Carvalho, 31 anos, está há seis anos no centro da cidade trabalhando com uma barraca de acessórios femininos e outras peças feitas por ela, entre outros objetos. Rose, como é conhecida pelos clientes, conta que apenas nos períodos de férias escolares e das universidades o movimento na barraca cai um pouco. Agora, com a volta às aulas dos estudantes universitários, o momento é propício para conseguir boas vendas.
Rose conta que os produtos mais procurados são brincos, pulseiras, presílias e pequenas bolsas de crochê. Estar em sintonia com a moda de cada período é essencial para atrair a atenção dos clientes, conta Rose. "Você tem que estar sempre por dentro da moda e das novidades para vender mais. Isso atrai muito os jovens, principalmente. Às vezes, eu também tenho que trabalhar com produtos que não são artesanais porque o sistema te obriga a isso para poder sobreviver. Eu vivo disso. Toda a minha renda sai daqui", diz Rose.
Há 17 anos ela vive do trabalho que faz criando peças artesanais. Morando com um irmão, ela garante seu próprio sustento e divide as despesas da casa com ele. Entre as suas obrigações finaceiras fixas estão a contribuição com o INSS e o pagamento de uma taxa anual de licença à prefeitura. Todo o material escolar que ela utiliza também é comprado com a renda que Rose tem através do trabalho com a sua barraca.
"Todo o meu sustento sai daqui. É uma vida difícil, mas, com a crise que o País enfrenta e com o atual governo que a gente tem, é o único meio de sobrevivência de muitas pessoas. Não tenho regalias com esse trabalho. O que ganho é para me sustentar, graças à Deus", diz Rose. Em média, ela fatura o equivalente a cerca de quatro salários mínimos por mês, dependendo da época do ano. Os gastos que tem com a compra dos materiais utilizados na confecção das peças é grande: de R$ 200,00 a R$ 400,00 por mês.
Eduardo da Silva, 19 anos, tomou uma decisão ousada. Trocou o trabalho com carteira assinada para vender sachês para carros e ambientes em semáforos. Resultado: está ganhando mais do que antes. "Eu ganhava R$ 500,00 na empresa que trabalhava e isso não estava sendo suficiente para suprir as minhas necessidades. Como eu já vendia esses sachês e percebi que tinha uma boa saída, resolvi sair do emprego em que eu estava e me dedicar só à venda desses perfumadores, acreditando que eu ia conseguir uma renda maior. E consegui", comemora.
No seu primeiro mês completo de trabalho, vendendo o produto em semáforos e lojas da cidade, Eduardo teve um faturamento de aproximadamente R$ 700,00. Por dia, ele fatura de R$ 30,00 a R$ 40,00. Cada sachê é comercializado por R$ 2,00. Ele afirma estar satisfeito com o seu trabalho e renda atuais e acredita que, com o tempo, ficando mais conhecido pelas pessoas, poderá faturar ainda mais. Além de pagar o aluguel da casa onde mora e todas as suas despesas, Eduardo ainda envia uma quantia mensal para a sua família, que reside em Maringá (PR).
Arte em móveis e pinturas
Claudenor Garbo de Melo, que há 12 anos executa atividades artesanais, há dois anos começou a trabalhar com restauração de móveis e pinturas especiais, como a pátina. Antes, ele trabalhava com gesso e garante que a renda que possui agora, em torno de R$ 1 mil por mês, é bem melhor. "Eu ainda pego alguns trabalhos em gesso, mas, as restaurações e as pinturas especiais garantem quase toda a minha renda mensal. Antes, quando eu trabalhava só com decoração em gesso, tirava bem menos porque era empregado de uma empresa", diz.
De acordo com Claudenor, sua esposa, que é marchand, também trabalha e a renda dos dois sustenta a família (o casal e mais uma filha de 11 anos) e paga todas as contas e despesas do lar, inclusive o aluguel. Para ele, a remuneração que tem com o trabalho que desenvolve não é satisfatória, porque ele tem muitos gastos com a compra de materiais para trabalhar. A concorrência também estaria crescendo, mas poucos conseguem permanecer no mercado, como ele, em função da qualidade dos serviços.
Claudenor diz que vai continuar com o trabalhao que desenvolve atualmente, mas, que pretende exercer mais alguma atividade para aumentar a sua renda. "Vou continuar com esse trabalho porque é um setor que está crescendo muito. Mas, pretendo fazer mais alguma coisa para aumentar a renda mensal", conta.
Lei organizará o espaço
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Economia Informal de Bauru (Sinteib), Mário Augusto dos Santos, diz que, atualmente, na região central da cidade existem 315 barracas, entre as de artesanato e outras mercadorias, carrinhos de lanches, de sucos e de caldo de cana. Segundo ele, com a lei municipal que determina a instalação dos informais pelas ruas da cidade, o setor ficará mais organizado e o sindicato poderá fazer um melhor controle junto aos trabalhadores da economia informal.
"Com a nova lei, ficará difícil para pessoas de outras cidades se instalarem aqui, mesmo nas regiões de periferia, porque terão que apresentar comprovante de residência de no mínimo dois anos. Isso será ótimo, porque essas pessoas vêm a Bauru só para garimpar e não deixam nada aqui, não contribuem para o município. Quem deve ser privilegiado são as pessoas que colocam dinheiro para circular aqui, que pagam os seus impostos aqui", observa o presidente do Sinteib.
Além disso, a lei também serviria para organizar a questão do espaço já que, segundo Santos, estaria havendo uma ocupação desordenada em alguns pontos. Para isso, o sindicato está fazendo um levantamento, junto aos barraqueiros, com o objetivo de conhecer as reais necessidades de cada um e também para evitar que uma mesma pessoa tenha mais de uma barraca instalada, o que, segundo Santos, prejudica quem está precisando e querendo conseguir um espaço regularizado para desenvolver o seu trabalho. "Tem pessoas que possuem quatro barracas. Ou seja, elas criam um monopólio e acabam dificultando o acesso de outras pessoas que querem trabalhar vendendo produtos em suas barracas. Com a lei, isso vai acabar", afirma Santos. Os informais que são sindicalizados pagam uma contribuição mensal de R$ 10,00 ao sindicato.