Já muitas vezes nos temos referido ao ritmo alucinatório de vida que quase todos somos compelidos a levar, dentro do quadro de absurda inversão da ordem natural das coisas, quadro em que o homem, sem o qual não existiria o Mercado, esse novo Moloch do mundo a cada dia mais pagão que se nos patenteia diante dos olhos, passou a tê-lo como uma espécie de ente autônomo, o qual tem que servir como escravo. E o referido Moloch, cada vez mais exigente, produz, deliberadamente ou não, uma espécie de alienação das massas que, como rebanhos, vão sendo conduzidas, ou tangidas, para um destino que elas ignoram qual seja. Por isso, poucos, muito poucos, conseguem perceber as distorções do noticiário internacional, cada vez constituído mais de propaganda de que de pura, simples e honesta informação.
Fala-se, por exemplo, muito em paz e em direitos humanos, em uma realidade em que se multiplicam os conflitos, sobretudo localizados - que hoje se contam por muitas dezenas pelo mundo afora -, produzindo vítimas diretas e indiretas, como as que decorrem da miséria e da fome, as quais atingem cifras astronômicas não devidamente realçadas por aquele noticiário internacional, cifras que alcançam, sem nenhum exagero, anualmente, milhões de seres humanos.
Órgão especializado da ONU, por exemplo, estima que, de fome endêmica, carência alimentar grave, ou de fome propriamente dita, falta total de alimentos, consideradas as zonas pauperizadas da África, da Ásia e da América Latina, perecem cerca de um milhão de pessoas!
Na África, por exemplo, a maioria dos países que teriam sido libertados pelos seus antigos colonizadores - geralmente arautos da democracia e dos direitos humanos - continuaram com as principais riquezas que possuem sob o controle de multinacionais sediadas nas antigas metrópoles, cabendo-lhes, depois da libertação, arcar com o ônus das despesas públicas, antes mantidas pelas metrópoles. E, como em seu insaciável apetite, o imperialismo nunca levou em conta na fixação das fronteira das suas antigas colônias, as diferenças étnicas e culturais por acaso abrangidas por elas, os novos Estados libertados, muitas vezes as contêm, e difíceis de conciliar, o que dá origem a múltiplos dos conflitos a que fizemos alusão. Em tais conflitos, as facções que apóiam o governo formalmente existente, armam-se adquirindo, via empréstimos externos, as armas com que lutam, passando, então, a instalar em seus países, as implacáveis e intermináveis ventosas dos serviços das respectivas dívidas - o que lhes torna impossível promover progresso e desenvolvimento reais para seus povos. Os rebelados contra o governo, porém, curiosamente, dispõem de armas bastante sofisticadas, que nem elas nem os que defendem o governo fabricam. Quem lhas fornece? E quando alguns pés-de-chinelo dos nossos morros aparecem com armas de mesmo tipo, levanta-se um barulho sobre a necessidade de coibir o contrabando de armas, barulho que engaja logo várias Ongs, e alguns comentários desprimorosos nos EUA...
Mas há, em todos os conflitos de que estamos tratando, uma única e curiosa exceção: os palestinos, em suas intifadas, praticamente só dispõem de pedras para agredirem os seus adversários israelenses.
Não parece ao leitor, muito curiosa a exceção mencionada?
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