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EU TIVE UM SONHO...

Dionísio Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Eu tive um sonho! Sonhei que eu iria fazer nova viagem a S. Paulo. Confesso que já viajei muitas vezes de ônibus, mas sempre preferi o trem: é mais seguro, mais barato, e desta feita seria mais rápido, porque eu iria viajar num trem de alta velocidade, como os existentes na Europa. Enfim, a BTF-Bauruense de Transportes Ferroviários já era uma realidade. Duas pistas retilíneas de Bauru até S. Paulo, uma só para ida e outra para volta, construídas com tecnologia de ponta, num trabalho de engenharia (disso o Brasil fala de cátedra), que era praticamente impossível acontecer um acidente ferroviário.

Eu tive um sonho! Que a estrada fora construída através de um consórcio de capitais brasileiros e de países investidores da União Européia. Desde que existem milhões de dólares circulando pelo mundo à procura de investimento, os inversionistas internacionais estavam satisfeitos: tinham encontrado um empreendimento seguro, rentável, onde aplicar o seu capital.

Eu tive um sonho! Que a BTF-Bauruense de Transportes Ferroviários tinha sido construída, por força de diretrizes tomadas pelo Ministério dos Transportes, numa política visando reabilitar nosso parque ferroviário. Um país das dimensões territoriais como o Brasil, entre as primeiras economias do mundo e país dos mais populosos, não poderia descartar um meio de transporte econômico, seguro, e presentemente dos mais rápidos, que aceita várias alternativas em termos de propulsão, deixando-se sujeitar às incertezas do problemático comércio petrolífero.

Eu tive um sonho! Que a BTF era um modelo de ferrovia. Serviria de padrão para a construção de outras ferrovias semelhantes em várias partes do Brasil. Na Itália corre o Sete-Belo, no Japão o Trem-Bala e trens do mesmo tipo circulam pela maioria dos países da Europa. Ao contrário dos trens ultra-rápidos da Alemanha que em toda extensão da linha são obrigados a correr através de túneis e pontilhões os trens da BTF corriam praticamente a céu aberto. Podiam atingir a velocidade de 300 quilômetros por hora fazendo o percurso de Bauru a S. Paulo em pouco mais de uma hora.

Eu tive um sonho! Que o imponente prédio da praça Machado de Melo não tinha sido vendido para a Prefeitura, nem cedido para nenhuma universidade. Estava reformado e pintado de novo. Vidros espelhados nas portas e janelas. Pisos, luminárias, tudo novo. O magnífico edifício exibia toda a sua majestade, como nos velhos tempos. Regurgitava de gente: muitas pessoas residentes em Bauru trabalhavam em S. Paulo. Estudantes fazendo cursos na capital. E muita gente das cidades vizinhas deixava seus carros em garagens e estacionamentos da cidade e embarcava nos trens da BTF com destino à capital economizando tempo e dinheiro. Como a administração da estrada iria ocupar espaço limitado no prédio em questão, suas salas estavam sendo alugadas para profissionais de toda sorte e para empresas que decidiram se instalar em Bauru, diante das perspectivas que poderiam ser oferecidas pelo Mercosul, Alca, etc. e ante as obras de vulto que estariam para ser realizadas em Pederneiras. Era mais uma fonte de renda para a estrada.

Eu tive um sonho! Enfim iria embarcar no trem ultra-rápido da novel empresa ferroviária. Dirigi-me até a estação ferroviária e esperei o bitelo encostar. Tal qual uma figura jurássica vi o gigante que vinha se aproximando. De aço polido num tom acinzentado tinha duas faixas douradas em toda sua extensão e entre as faixas em negrito bem destacada a sigla BTF. Fabricado no Japão, era uma réplica do Trem-Bala daquele país, com algumas modificações e adaptações para as condições brasileiras. Procurei o número do vagão indicado no meu bilhete e embarquei. O ar-condicionado estava bem regulado: fresquinho, gostoso. Procurei a minha poltrona. Um plástico macio, feito de um material que um espírito de porco, não riscava nem com uma faca de sapateiro. Na minha frente duas caixas de plástico: uma de cor vermelha e a outra azulada. Apertei os botões que se destacavam e vi que uma era uma mini-televisão. Na outra a indefectível Coca-Cola e uns salgadinhos embrulhados. Na frente do vagão um painel luminoso marcava regressivamente o tempo de partida do expresso. Uma bonita ferro-moça passou apressadamente em direção aos fundos do comboio. Com certeza, alguma porta estava assinalando que não estava suficientemente fechada.

Pirri! Foi dada a partida e o trem começou a deslizar macia e silenciosamente. Acordei quando escutei uma voz na casa do lado dizer: esse cara está mesmo pirado. Pelo jeito está imaginando que é juiz de futebol ou chefe de bateria de alguma escola de samba... (Dionísio Molina - RG: 1.127.597)

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