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Espaço para novos líderes está minado

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 4 min

Ausência de oportunidades de participação impedem surgimento de lideranças; sindicatos e partidos sentem esgotamento

A ausência de espaços e oportunidades para participação em partidos políticos, associações e sindicatos está impedindo o surgimento de novas lideranças em Bauru. A opinião é de articuladores e membros ativos desses movimentos, entrevistados pelo Jornal da Cidade.

Um dos reflexos desse problema pode ser percebido no Congresso, que desde 1998 não tem representante bauruense entre os deputados federais, mas as bases da política partidária e dos sindicatos também dão sinais de esgotamento.

Há tempos estamos percebendo a recondução de chapas para diretorias de sindicatos que não contam com um novo membro sequer. Há dificuldades em formar lideranças, reconhece Paulo Vieira Lima, coordenador da subsede da CUT de Bauru e região.

Os obstáculos, na opinião do sindicalista, envolvem a conjuntura socioeconômico mundial. Com o aumento do desemprego, muita gente tem receio de participar de atividade sindical e perder o emprego, aponta Lima. O vereador e ambientalista Rodrigo Agostinho (PMDB) vai além: Hoje, as pessoas pensam primeiro na sobrevivência e depois nos interesses coletivos, opina.

A opção pelo coletivo torna-se mais difícil quando entram em jogo família, estudos e dinheiro. A maioria não tem disposição para fazer os sacrifícios que a militância exige, reconhece o petista Roque Ferreira, presidente do Sindicato dos Ferroviários.

Ferreira fala por experiência própria. Militante ativo do movimento sindical e do PT, por diversas vezes foi cobrado por permanecer mais ocupado com movimentos políticos ao invés de ficar com a família. Em outros momentos, a solidez de suas posturas nem sempre era compreendida pelos companheiros políticos.

Respeito as opiniões divergentes, mas isso não implica em concordar, tenho a obrigação de apontar caminhos. Sou daqueles que entendem que os problemas individuais somente têm solução com a ação coletiva, posiciona-se o sindicalista.

Complexidade

A formação de novas lideranças esbarra em outro problema: o tempo. É um processo longo, difícil. Um líder não aparece de uma hora para outra. É preciso tempo e oportunidade, diz Elio Busch, coordenador regional do PSDB.

Nesse período de formação, muitos não conseguem se manter convictos em seus ideais e esmorecem perante a pressão de grupos opostos. Não raro, há cooptação por meio do oferecimento de benesses, sustenta Roque Ferreira. Se não são corrompidos, desiludem-se com o jogo político.

A maior força de retração, no entanto, é feita pelas lideranças antigas. A ação dos mais antigos inibe a dos mais novos. É como num time de futebol: por respeito ao craque, o novo se retrai, compara o tucano Elio Busch.

Em muitos casos, o medo de ficar à sombra de um potencial candidato é que motiva o bloqueio. Anos atrás, muitas lideranças tentaram surgir, mas foram bloqueadas pelos mais antigos. Numa sociedade democrática, precisamos incentivar e dar abertura à participação. Caso contrário, haverá constrangimento e, conseqüentemente, desistência, analisa o vereador José Clemente Rezende (PPS).

Acesso à informação pode abrir caminhos

A formação de lideranças passa, necessariamente, pelo maior acesso à informação e pelo conhecimento dos direitos e deveres do cidadão. Sem isso, torna-se difícil abrir campo para a ação de novos líderes, sustentam os vereadores Rodrigo Agostinho (PMDB) e José Clemente Rezende (PPS).

A ausência de formação e informação é algo sério. Há muita gente que quer formar associações de moradores e ONGs e não sabe por onde começar, não sabe quais são seus direitos. Somado a isso, falta oportunidade e espaço. Quantos partidos não se tornaram panelinhas?, questiona Agostinho.

O espaço minado e o desconhecimento atrapalham até mesmo a ação dos próprios vereadores. Muitas vezes, torna-se difícil explicar para a população qual é o papel de um parlamentar, que certamente não é arranjar emprego para alguém, como muitos me pedem, conta Agostinho.

Apesar disso, o peemedebista diz ser possível reverter essa situação. Uma das formas, acredita, é por meio da ação voluntária. Nesse sentido, o fato de 2001 ser o Ano do Voluntário é algo importante. Ao se tornar voluntário, a pessoa se dá chances para conhecer outra realidade, opina.

Rezende é outro otimista. Sua crença reside em abrir espaço para a participação comunitária. Torço e trabalho para que a população acompanhe os trabalhos da Câmara Municipal de maneira mais atenta. Se há participação da comunidade, o surgimento de líderes se torna natural, garante.

Na opinião de Rezende, o momento é propício para essa transformação, que pode culminar em um mundo de ideais coletivos. Hoje, há uma nova consciência política surgindo. Antes, o entendimento era que política não era coisa de gente séria e isto está mudando. As pessoas estão percebendo que um político pode fazer bons trabalhos e contribuir para a comunidade, conclui.

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