A natureza acaba de dar mais uma lição no gênero humano que teima em dominá-la para assim chegar ao nível de Deus. Pobre homem. A genética baniu de vez o conceito de raça, mostrando que há apenas diferenças biológicas mínimas entre nós. Essencialmente, somos todos gêmeos: não há diferenças entre brancos, negros e asiáticos. Até há alguns anos os cientistas mostravam-se concordes em achar que o homem era um ser perfeito. A Bíblia afirmando ter sido criado à semelhança de Deus. Agora, surge a verdade: o homem está longe dos 100 mil genes previstos. Tem apenas cerca de 30 mil. Tantos como os de uma reles barata. Desses 30 mil, apenas 1% são exclusivamente humanos. Isto quer dizer que a nossa diferença genética de uma lacraia é de apenas um por cento. E então: pra que tanta pose, doutor? Pra que tanto orgulho? - como pergunta a letra do samba. Todos nós, um dia, acabamos na horizontal servindo de alimento aos vermes que, segundo o Projeto Genoma Humano, tem pelo menos a metade de todos os gens do homem. Acabou o orgulho da nossa espécie. Quem achou estar perto de desvendar os segredos do Criador, deve estar decepcionado. Sabe do que são feitos alguns animais e vegetais, mas não descobriu o sopro divino que faz as coisas funcionarem. É claro que o início do desvendar do código genético tem o seu lado pragmático. Pelo menos já nos permite identificar mais de 800 doenças causadas por defeitos genéticos, com apenas uma gota de sangue. O genoma também poderá nos ajudar a criar remédios personalizados, com menos efeitos colaterais e mais eficiência, reduzindo assim o número de mortes por reações adversas a medicamentos. Contudo, outros aspectos são preocupantes, como os testes de aconselhamento genético, que permitem detectar, por exemplo, se uma pessoa é propensa a desenvolver doenças como um câncer ou males cardiovasculares.
O homem, na sua mesquinhez, tanto pode aproveitar esses conhecimentos para prevenir enfermidades como para demitir empregados muito antes de ficarem doentes. Isso é possível em uma sociedade globalizada onde o capitalismo não tem rosto e as empresas não têm pátria. Os megaconglomerados empresariais começam a estender seus tentáculos pelo mundo todo com o único objetivo de acumular mais capital. Empregado é apenas um item na despensa nas relações de produção. A BBC de Londres, não faz muito tempo, exibiu um documentário sobre clonagem usando imagens simuladas por computador em que um ser semi-humano é criado para que seus órgãos, no futuro, possam ser usados como meras peças de reposição. A ciência já provou que é capaz de criar, de verdade, um camundongo com orelha de gente.
Tudo nos leva a crer que o século XXI será o século da biologia, cujo destino final dependerá da incorporação da ética no cotidiano de suas atitudes. O limite entre o emprego da tecnologia para o bem ou para o mal, é bastante frágil. O jornalista norte-americano Edwin Black, no livro IBM e o Holocausto, acusa a empresa de ajudar os nazistas a localizar os judeus para serem enviados a campos de concentração, com a máquina inventada por Hollerith para mecanizar os serviços de escritório. O que serve até hoje para denominar o nosso contra-cheque de pagamento de salário, ajudou a mandar muita gente para os fornos crematórios de Auchwitz, Dachau e Treblinka. O Dalai Lama, em Uma ética para o Novo Milênio, levanta uma questão essencial para a solução dos problemas que o mau uso das tecnologias possam nos trazer: o exercício de uma consciência universal. O homem somente atingirá a perfeição que pretende, no dia em que houver uma única reação: somos todos iguais. Em outras palavras: o conhecimento de nada vale sem a virtude. Ou como pregava o apóstolo Paulo - de que vale ao homem ganhar o mundo todo, se vier a perder a sua alma.
(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC